Está pesado. Não fuja. Enfrente.

 

Está pesado. 

Não desvie. Tenha coragem.


Coragem. 

Nós criamos essa realidade. Assuma-se parte.

 

Existe pandemia.

Existe genocídio indígena, do povo preto, do pobre.

Existe machismo que subjuga e mata.

Amazônia está queimando, Pantanal está queimando.

 

Queimando

É consumismo.

É aquecimento global.

É patriarcalismo.

É capitalismo.


O capitalismo

É criminoso.

E é a morte.

Chega de negar. Apenas é.

 

Apenas é.

A vida é montanha-russa de causas e efeitos de que fazemos parte.

Controlamos pouca coisa.

Pouca coisa que nos cabe.


Do que cabe

Aja um pouco.

Incomode um pouco.

Exista um pouco.


Exista!

 

Está pesado.

Não fuja. Enfrente.

 

Voltando pra casa

estou voltando para a casa do coração
enquanto limpo o caminho
e vejo a trilha que ficou perdida

estou voltando para a a casa do coração
que tanto me chamou sem ser atendido

estou voltando para a casa do coração
onde farei pouso e morada

estou voltando para a casa do coração
onde fico protegida e sou amada

estou voltando para a casa do coração
que me alimenta de quente vermelho vivo

estou voltando para a casa do coração
que deixa de fora o sofrimento, a dor e medo

estou voltando para a casa do coração
onde tudo é perdão, nada é castigo, não há provas, só se existe

estou voltando para a casa do coração
que me aceita, que tudo aceita

estou voltando para a casa do coração
que acolhe porque ama, que recolhe porque ama, que transforma porque ama, que cuida porque ama, que acalenta porque ama, que incentiva porque ama, que ama, e ama e ama

Sobre o que acontece à noite

À noite, apagar a luz.
Desde os pés sentir o que vê cada olho; o que cheira; o que ouve; o que tateia.   

À noite, enxergar melhor.
Dar o passo no escuro e saber mais do que se fosse meio-dia.

À noite, aprender a ter fé.
Deitar raízes como se fossem tranças ao ventre da terra e perceber o calor da mãe assombrosa.

À noite, brincar com o céu.
Ler o propósito no desenho das estrelas sem perder de vista a intenção primeva da fruição.

À noite, largar-se.
Reunir o corpo ao corpo da terra; a mente ao mistério; o coração ao segredo; o tudo ao todo; o início ao fim. 

À noite, a claridade está por dentro.
Deuses e demônios se apresentam como são.

Portadora do milagre do dia; a noite é semente.
Não há nada com o que se ocupar, senão ser; a noite é guardiã do prazer.

Toda noite, reverencie.
À noite, a existência encontra o êxtase.

A ponte

Foi sobre a ponte que descobri que não era mais menina
e reconheci que as águas densas e profundas,
eram tão bonitas e perigosas como a vida,
tão ricas e escuras quanto o meu coração.

Foi no meio da ponte que me reconheci outra,
quando pousei os olhos aflitos em busca de um eu não nascido,
no lado em que choravam árvores longas em suspiros aflitos
de ramos quase verdes, quase brancos, indefinidos,
onde fiz casa para os amores desaparecidos.

Ao lado da pontei tirei uma folha de hera da parede infiltrada,
colhi um ramo de chá no matagal que o rio ladeava
e segurei na mão da vó enquanto andava
sobre os trilhos daquela longa e antiga estrada.

Foi ao cruzar a ponte que entendi que me traía,
desde a ponte joguei a última pedra na água que encerrou a minha infância,
enquanto do outro lado passava o último trem levando embora a alegria
de quem nada teme, não tem hora, pode ser criança.
.
Foi sobre a ponte que me fiz ponte
quando, a primeira, comecei a travessia, hoje até esquecida,
da aventura difusa da imagem de quem eu seria para a criança que soube
ser capaz de atravessar as águas imensas do caldeirão da vida.

Meu trono

Como rainha da res existência,
subscrita no cotidiano banal
resisto.

Redesenhada na experiência,
portadora do corpo, do fato e do real,
existo.

Por ser letrada nas entrelinhas,
a vontade de imergir na verdade
persigo.

Brumadinho

O anúncio mostrou,
novo modelo saiu,
você comprou.
Esgotou tão rápido.

O metal multiplicou,
o buraco se abriu,
você fingiu que não viu.
Se vendeu tão rápido.

O calor subiu,
água grossa desceu,
do compromisso você esqueceu.
O nível subiu tão rápido.

A barragem rompeu,
tudo a lama atingiu.
Sobre a vida que você vendeu
a lama passou tão rápido.

Rapidamente atingiu,
a vila que ao lixo sucumbiu,
à violenta lama de dinheiro que fornece
as pás que retiram da vida qualquer amor
até que a ganância termine com toda espécie.

Cumprimento

Olá, boa tarde, como vão?
Em gesto gentil, estendo-lhes a mão.
Os corpos se dobram, os rostos se curvam, indicando saudação.

Tão reiterada formalidade, a fim de uma função,
esconde bem a vontade, talvez secreta maldição. 

Bem gostaria de vê-los mortos e bem enterrados,
membros inteiramente extirpados, pés e mãos.
Cabeças decapitadas, miolos saindo pelo vão. 
Corpos tremulantes, troncos espasmados, rentes ao chão.

Olá, boa tarde, a que honra devo a visita
de tão malditos senhores no porão mais obscuro da minha imaginação?

Pequeno formulário

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Quais seus anseios.
Sua visão.
O que falta.
O que você não quer mais.

O monstro do medo


É preciso rir das coisas da mente. Talvez a falta desde sempre tenha sido a de levar a sério demais o fanfarrão que é a mente.

É preciso rir quando você pensa que está no mesmo ponto do círculo, mas agora possui nova perspectiva, do alto da roda gigante.

É preciso rir do atrapalhado da mente quando nos prega peças. No fundo, a gente até acha graça, mas quem leva a sério é o medo. O medo não tem humor.

O medo não tem medida, leva tudo ao pé da letra, leva a sério qualquer descarga emocional que poderia estar sendo somente descarregada.

É preciso rir para mostrar pro medo que tudo tem um jeito e que nada realmente tem jeito, que a gente tem que aceitar e se aceitar, que boa parte do que tememos é engraçado demais, pura bobagem, resultado da falta de rir da própria cara.

É preciso olhar para o monstro e achá-lo desengonçado, meio tosco em sua tentativa de assustar as crianças e as pessoas mais sensíveis.

É preciso ver o quão desproporcional é a sombra do monstrão perto da realidade de monstrinho.

Eu tenho medo.
Eu me tremo de medo.
Eu me dobro de medo.

Eu acho graça.
Eu me tremo de dar risada.
Eu me dobro de dar risada do exagero do meu medo.

Eu aceito o meu medo.
Eu aceito o meu monstro.
Eu tenho medo, acho graça e sigo em frente.

Travessia

Faltou luz quando fui ler o relatório que desapareceu;
quando fui limpar o chão que desapareceu;
quando fui ligar a tevê que desapareceu.

Faltou luz quando sem poder ver fechei os olhos;
quando me aninhei no tecido dos cobertores;
quando senti o calor da chama da vela.

Faltou luz quando escutei a vibração da ausência;
quando escutei os medos e as vontades;
quando eu me escutei.

Faltou luz quando um caminho surgiu para dentro e por atrás dos olhos;
quando um horizonte se firmou no centro do essencial e no topo da descoberta
quando o avesso das coisas mostrou relevo e cores.

Nada disso espanta porque é no escuro o trânsito da espera;
porque o breu recobre a chegada do que lhe transforma; 
porque a luz que falta nas travessias de si mesmo serve para acender do outro lado algo novo, iluminado.