Faltou luz quando fui ler o relatório que desapareceu;
quando fui limpar o chão que desapareceu;
quando fui ligar a tevê que desapareceu.
Faltou luz quando sem poder ver fechei os olhos;
quando me aninhei no tecido dos cobertores;
quando senti o calor da chama da vela.
Faltou luz quando escutei a vibração da ausência;
quando escutei os medos e as vontades;
quando eu me escutei.
Faltou luz quando um caminho surgiu para dentro e por atrás dos olhos;
quando um horizonte se firmou no centro do essencial e no topo da descoberta
quando o avesso das coisas mostrou relevo e cores.
Nada disso espanta porque é no escuro o trânsito da espera;
porque o breu recobre a chegada do que lhe transforma;
porque a luz que falta nas travessias de si mesmo serve para acender do outro lado algo novo, iluminado.