A ponte

Foi sobre a ponte que descobri que não era mais menina
e reconheci que as águas densas e profundas,
eram tão bonitas e perigosas como a vida,
tão ricas e escuras quanto o meu coração.

Foi no meio da ponte que me reconheci outra,
quando pousei os olhos aflitos em busca de um eu não nascido,
no lado em que choravam árvores longas em suspiros aflitos
de ramos quase verdes, quase brancos, indefinidos,
onde fiz casa para os amores desaparecidos.

Ao lado da pontei tirei uma folha de hera da parede infiltrada,
colhi um ramo de chá no matagal que o rio ladeava
e segurei na mão da vó enquanto andava
sobre os trilhos daquela longa e antiga estrada.

Foi ao cruzar a ponte que entendi que me traía,
desde a ponte joguei a última pedra na água que encerrou a minha infância,
enquanto do outro lado passava o último trem levando embora a alegria
de quem nada teme, não tem hora, pode ser criança.
.
Foi sobre a ponte que me fiz ponte
quando, a primeira, comecei a travessia, hoje até esquecida,
da aventura difusa da imagem de quem eu seria para a criança que soube
ser capaz de atravessar as águas imensas do caldeirão da vida.