Quarta de cinzas

Estou saindo de casa rumo ao trabalho e na direção oposta algumas pessoas transitam alegremente com os apetrechos de praia. É o primeiro dia de sol desde o carnaval. É o início da quarta-feira de cinzas.

Ao virar a esquina ligo o rádio. Previsão do tempo. Dia ensolarado, temperatura acima dos 30 graus centígrados. O clima do sul não sabe pular carnaval, choveu e fez frio no carnaval. Hoje faz sol e está quente.

No rádio está tocando Dust in the wind.

É quarta de cinzas, quase cai na cara o céu de tão azul e está tocando Dust in the wind. Dentro do carro o ar condicionado intenso enubla o vidro dianteiro e embaça a minha visão.

As pessoas estão indo para a praia, as pessoas estão indo trabalhar, é quarta de cinzas, faz sol, toca Dust in the wind e meu carro é o litoral bretão no inverno.

No carro à frente um turista expõe pela janela os cotovelos bronzeados e se demora. Gesticulo ao volante, anda, anda! O turista permanece em contemplação. Me irrito, buzino, estremeço, coloco as mãos entre os cabelos, o que toca naquele carro? Despacito?

Desisto do buzinaço e arrumo meus cabelos. No espelho a cara está opaca. A pior cara de ressaca é a cara dormida de segunda mal começada. A pior ressaca é a ressaca de segunda. Ressaca de sonho. Rugas de desejos mortos. Secura do que não foi, não é e não será. A ressaca se ressente.

É quarta de cinzas no rosto de segunda, a segunda é estado de espírito, o espírito é de porco e o estado está instável, faz sol e está tocando Dust in the wind. Dou um risinho de canto de boca, meio afogado, sol, dust in the wind, rsrsrs... O carro afoga junto, dá dois solavancos e para.

Retenho a respiração até girar a chave e ouvir o barulho do motor novamente. Tudo está normal. Sigo na fila atrás do mesmo carro. Dust in the wind, rsrsrs...

A gente nunca sabe se é algum fator ou se é a soma deles que dispara a visão do absurdo, mas, a partir daí, o indizível recobriu a cena com sentido tão explícito que a risada se desenfreou solta até rodarem lágrimas grossas como a água condensada no para-brisa.

D U S T. I N. T H E. W I N D...
K A K A K A K A K A K A K A K A K A K A K A

Seco as lágrimas e respiro aliviada pela catarse.

Toca dust in the wind, toca despacito, os cotovelos abertos, as caras fechadas, a praia, o trabalho, as esperanças, as frustrações, a efemeridade, tudo está normal, é quarta de cinzas e o ano começou.

No cruzamento, o turista no carro à frente converge em direção às praias e o vento projeta na minha direção a sonoridade alegre de uma música que eu não consigo reconhecer. Algum novo sucesso? Por que está tão silencioso aqui? Será que acabou a música? Será que a ouvi até o final ou nem percebi quando desliguei o rádio?

Ligo o rádio novamente. Agora toca Take on me. É aquele programa de músicas dos anos oitenta, década em que nasci... Eu e as músicas com a mesma idade, como é que pode?

Olho para o sol. Que dia. Que céu.

Faz sol, é quarta de cinzas, o ano começou, toca Take on me, tocou Dust in the wind, há beleza nas coisas, o sentido é fugaz, o vento traz e leva embora, eu sigo em frente, eu sempre vou, eu simplesmente sempre vou...

Helena Tereza Veranize
Florianópolis, 15 de fevereiro de 2018.