O Muro


Na época em que ingressei no mercado de trabalho, lá pelos meus vinte anos, eu e uma amiga do escritório cultivávamos o hábito de ir a um bar após o expediente, escolher o canto mais isolado, beber algo e então desatinar-se a escrever poemas, frases soltas, preenchendo cadernos com notável rapidez. Em tais ocasiões, surgiam também desenhos e até mesmo pretensas letras de músicas. Era uma entrega a uma variação um tanto mais artística da popular filosofia de boteco.  No dia seguinte ríamos muito ao ver o resultado: primeiro a expressão benfeita das ideias e, ao final, os motivos misturados; era um mosaico mental, um diário de bêbadas.
De volta ao trabalho rapidamente as boas impressões se desfaziam e nos submetíamos à repetição de procedimentos sob uma rígida arquitetura de regras e de hierarquias que prosseguia até o esgotamento, até o esvaziamento de qualquer beleza.
Eu olhava para ela e percebia a contenção da nossa substância no esforço de adaptação. Disfarçávamos a nossa exuberância, freávamos as nossas mentes velozes, calávamos qualquer opinião dessemelhante, impúnhamos uma ordem tão artificiosa que deixava visível o lastro da nossa inadequação.
Quando eu sentia que poderia explodir em mil pedaços, as noites de criatividade ébria tornavam-se uma proteção. Eram a nossa maneira de recuperar o self, de retomar o sentido das coisas.
Construíamos, assim, uma barreira com a função de distinguir o que era real do que era impossível, o que era sólido do que era fumaça, o que era fato do que era devaneio, e sempre pareceu que a realidade, a solidez e os fatos eram aqueles momentos em que estávamos nós duas divagando por horas a fio.
Porém, aconteceu que durante um treinamento de trabalho, ela me atingiu com uma inusitada quebra do nosso paradigma que me obrigou a enxergá-la e enxergar-me sob outra perspectiva.
Era uma semanada de cursos forjados naquele formato utilitarista de "RH". Sem escapatória, detive-me a fazer o que garantiria a sobrevivência, a qual, para mim, estava atada à capacidade de garantir a aprovação, uma boa nota e a admiração dos professores. Mesmo que não existisse razão em fazê-lo e mesmo que discordasse profundamente do assunto, eu emularia todo o conteúdo, como que o engolindo por inteiro e fazendo surgir sobre ele uma matéria igual, mas mais bonita, por meio da minha habilidade de modelar e modular as palavras.
Assim, às perguntas sobre o que é necessário a um bom ambiente de trabalho, eu respondia com as fórmulas genéricas lançadas ao longo do curso, coisas como organização, respeito, assertividade, pontualidade, comunicação, trabalho em equipe, e lançava uma breve explicação para respaldar a escolha, elaborando de modo mais profuso as mesmas fórmulas.
Num gesto repentino, a minha amiga voluntariou-se a dizer: “Poesia”. Eu olhei para ela, estupefata. Ela continuou, com voz baixa, mas muito decidida: “Acho que também é preciso poesia no ambiente de trabalho. Sem poesia ficamos muito duros”. A instrutora parou para refletir por alguns segundos e em seguida a congratulou pela pertinência da resposta, dizendo "perfeito, você tem razão, precisamos de poesia". E anotou no quadro branco, junto das outras fórmulas: P-O-E-S-I-A.
Não consegui nem me mexer, nem olhar para o lado. Eu estava com a cabeça a mil. Por que raios ela não se deteve a repetir os nomes da apostila - organização, assertividade, pontualidade, tantas palavras-chave ali disponíveis! Como é que ela ousava transferir para aquele lugar o que havíamos sacramente e secretamente alocado do outro lado do nosso muro invisível? O que ela queria, derramar-nos à mercê daquelas bocas vorazes que não nos compreendiam, colocar-nos na iminência do esvaziamento derradeiro?
Surpreendeu-me ainda a concordância dos outros colegas à participação dela. Quer dizer, então, que aqueles que ignorávamos, de quem zombávamos e fugíamos pelos corredores, no final das contas, compartilhavam algo conosco ao alçar a poesia à condição de necessidade, mesmo não pertencendo ao funcionamento do nosso mundo argutamente segregado?
Aquele gesto inocente, bravio e insuportavelmente genuíno de minha amiga, se primeiro derrubou as nossas divisas, depois empurrou-me sem dó para os escombros das minhas máscaras, onde fiquei subitamente desidentificada. Afinal de contas, era eu – não ela – quem se construía sobre o vazio, como um doce de açúcar com casca bem confeitada. Era somente eu que precisava do afastamento abrupto, que vivia perigosamente cindida, transitando entre espaços diligentemente separados, na ânsia de criar algum conforto, uma paz de espírito. Era eu que incitava a fuga, ela só me acompanhava, largando-se momentaneamente à fluência tormentosa dos versos.
Aos poucos o baque do retorno à solidão causado por aquele rompimento foi se transformando em uma nova percepção sobre a minha amiga até observá-la em inteireza e admirar a sua autenticidade. Também aos poucos pude compreender melhor quem eu era e o que queria, dando conta de que mantinha aquela cisão pelo pavor de que os dois mundos ocasionalmente se encontrassem e se infiltrassem como trepadeiras emaranhando túneis capazes de derrubar as minhas armaduras tão bem consolidadas ao longo dos anos.
Quando fui capaz de enfrentar o medo, tristemente olhei para as minhas escolhas, olhei para aquele emprego e o que girava em torno dele, e constatei que era um bom caminho, mas não era o meu. No ano seguinte, fiz as malas e fui atrás de lugares aos quais eu pertencesse, um novo trabalho, uma nova cidade. Precisei reformular uma existência em que eu pudesse sentir-me inteira. Hoje, se acaso recomeço a erguer tijolos e separar-me de mim mesma, surge a necessidade irrefreável que faz romper a voz e que se impõe, devolvendo-me o prumo: poesia, é preciso que haja poesia.