Água da palavra

Suavidade não encontra 
o que é duro como pedra,
pedra no sapato,
pedra atirada.
 
Água não chega
à semente embrutecida,
à sede que não passa,
à seca que não termina.
 
Só interage o vento
com a poeira que arde os olhos,
com o poente avermelhado,
com os lábios estriados.

Há de haver amor, por favor.
Há de chover na ferida de areia.
Antes de abrir fendas funda
a lágrima como afluente da veia.

Que é fluída a matéria da vida,
que é redondo o limiar do encontro,
que são o mesmo ente a força e a resistência.

Dissolva em água a certeza absoluta
e nasça flor, folha
e música.
Chova a ponta da lança
e nasça riacho, fonte
e dança.