Meu peito cheio de demandas que chegam em largo fluxo pelos sentidos. Sons, cheiros, cores. Ao mesmo tempo uma angústia que segura. E eu digo, solte, seja água... Eu repito, solte, seja o sol e seja a noite, não queira entender. Pernilongos têm demandas também. A demanda deles me devolve ao conflito, o que virá agora, e a razão das coisas onde está.
Tem um engano do que dizem sobre escrever. Porque escrever não é para fora, apesar de parecer isso. Escrever é algo que se digere ao contrário, de baixo para cima, partindo das entranhas. É engolir alguma coisa que depende da mente para ser engolida. Sugere uma dicotomia irremediável. Eu repito solte, seja fluxo. Mas, e amanhã, e as coisas todas? Como pode a gente não conhecer de verdade nem os pais ou os irmãos? Como pode a gente es-tranhar as pessoas à medida que nos afastamos? Como pode a gente não conhecer ninguém de modo completo, nem a si mesmo?
Lidamos durante a vida toda com o mar insondável do que nos compõe. Somos todos feitos de uma beleza arrebatadora e de um horror atemorizante. Às vezes sentimos nossa respiração, mas podemos passar anos sem ouvir o próprio coração bater. É possível passar a vida sentindo cada uma das respirações do corpo? É possível passar a vida sem jamais prestar atenção ao que o corpo sente? Seria a capacidade lógica a mãe da abstração do corpo e a própria criadora da dicotomia? Por outro lado, a capacidade lógica é contingenciada pelo corpo, existe apenas no corpo, seja humano ou robótico. Ah, Descartes, querias limpar a sujeira, não é?
Podemos preencher nossos membros todos com artifícios e ainda assim, os pés não serão cabeça, nem cabeça serão pés. O cérebro reptiliano, nossa parte mais animal, o cérebro da sobrevivência, mantenedor do impulso, está mais próximo dos pés e ainda assim bem longe deles. Mais acima, no pudim de cinco quilos, a parte mais abstrata do que somos e que ao elaborar perguntas e respostas cria o mundo. "E Deus, e a origem das coisas, e eu, quem sou, eu importo?"
O córtex, a parte que realiza recortes e predicações serialmente, sucessivamente, numa expansão tão impressionante que parece não mais ter corpo: domínios de conhecimento que prescindem completamente de ida ao banheiro. Quem fala no livro que se lê por acaso come e caga? O corpo cria a função, que cria a capacidade cognitiva, que cria a capacidade de representação, que cria a abstração, que some com o corpo, estando nele. Não é abismal? Não é incrível? Cheio de demandas que chegam de uma descarga elétrica, o cérebro faz o peito bater forte.
Suspiro fundo. Bocejo com vontade de mudar a conversa. Já cansei. É que entendi o que queria entender. Poderia reescrever esse texto milhares de vezes e as palavras poderiam ser escritas por aleatórios milhares de pessoas. Tanto faz. "Comentários", diria Foucault. O saber é variável no tempo e no espaço, contingenciado pelo biológico, pelo social, pelo ideológico. Mas, transcendente, ele não é.
Em última instância, no limiar que quase escapa, o saber é tão do corpo quanto é o material dos intestinos. Isso é lindo e assustador. A parte assustadora é reconhecer a afetação biológica porque ela parece exigir que se prescinda da vontade de essência. Me causa desconforto porque um olhar equivocadamente reducionista pode tirar o tesão de qualquer coisa. Que vida sombria aquela que troca arte por pílulas e parece esse ser o ritmo do nosso mundo... Mas esse engano comum é facilmente superado se compreendermos o pulso criativo da maquinaria do corpo. Tenho para mim que criatividade é a união da célula com o tempo. O gene não é só egoísta, o gene é artista.
É possível que em razão da minha dicotomia fundante, aquela da origem ocidental e cristã católica, eu jamais abra toda a porta da casa para a criatividade intracelular. Minha cabeça ficou simbolicamente longe do resto. Mesmo assim, acho que de tanta música e poesia, minhas artérias ficaram aéreas. E daí que sou uma pessoa, por alguma razão, comprometida com os sentidos e com as razões dos sentidos, do texto à testa, do reto ao resto.
E nessa busca pelo sentido acaba que é na busca mesmo que encontro cérebro, e encontro célula e encontro o outro, o infinito outro dentro da membrana do olho, e me encontro, momentaneamente, antes de desaparecer via impulso elétrico no corpo dos discursos todos.