Enquanto isso, o tempo passa e passa também a vontade de realmente sentarmos ao lado daquele que julgamos conhecer, do grupo ao qual julgamos pertencer, do amigo que aos poucos deixamos de amar, por passar a enxergar mais a nuvem de informação que paira sobre sua cabeça do que os laços afetivos não racionais que ligam pessoas. Transformamo-nos numa imensa massa de franksteins sorridentes, em que todo o esforço para limpar da nossa cara a fragilidade, o defeito, a fraqueza, a inveja, o ódio e a diferença resultam cada vez mais no aumento mesmo disso tudo. Radicalmente separados de nossa inteireza e privados da experiência real de convívio, estamos confinados a uma realidade de polegadas, imersos no desejo da mentirosa possibilidade de um reino de só um habitante, que observa o mundo de sua timeline, e fica, a cada pouco, cada vez mais só.
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Da fragilidade que não se diz, do defeito que se disfarça, da fraqueza que se esconde, da inveja e do ódio que se acumulam, da diferença que se higieniza, é esse o tecido das fotos publicadas e das frases compartilhadas no convulsivo balé algorítmico, ininterruptamente consumido e produzido e novamente consumido, num ciclo de corvos jamais capazes de desejar o ar puro como se deseja a carne podre, ao qual voluntariamente nos submetemos por não suportarmos a solidão, por desejarmos o pertencimento, por sentirmo-nos especialíssimos, por transitarmos entre grupos tão distintos quanto irreconciliáveis, por sermos ao mesmo tempo tão sociáveis quanto individualistas.