Lerda perto do relógio, lá está uma lesma. Enquanto segue pela parede, ela cola e recola as pistas do que é.
Sempre faltam peças. O mundo lá fora, grande. A vida que se voa e vai. Rotinas, escolhas, idiossincrasias que caracterizam, cindindo.
A lesma sofre porque é bicho vivido, sabe muito. O saber da lesma é sua ruína porque ela sabe que é lerda demais perto do relógio. O relógio gira e cria o mundo, já a lesma faz um trajeto separando os lados. Basta olhar o rastro pegajoso da lesma pra entender. Partidas e chegadas incompreensíveis.
Daí que às vezes a lesma tem uma vontade de ser um-eu absoluto de fragmentos inteiros, e ser o universo e ser uma partícula de Bóson. Ser um-eu que não é sozinho nem separado porque não se sabe, se é. Livre do resto, só ser. Meu deus, que delícia.
Talvez ser água. Água que escorre sendo o leito, e é o gato, o limo, o verde da grama e se deleita lentamente, e abraça o que sente com suas gotículas táteis. Sem se apegar a nada.
É bem isso o que queria a lesma... coitada.
A lesma não sabe que querer ser água é o começo de não ser (porque o querer é sempre deslocado do íntimo) e ela continua num querer que é desespero, que é dor.
Dou uma risada meio sem graça da nossa ignorância: mesmo cheio de água na barriguinha da lesma, a pele grossa contém o conteúdo. Vai ser só água como? Mas minha risada é uma bofetada de ar ressecado na cara da lesma, que se reconhece fatalmente amarrada na roda.
Queria ser água só - grita a lesma.
Cansada da casca pequena e burra, ela se recolhe e se encolhe num ovo, então, chove, chove. Chove até secar a vontade. E dorme, refeita.
As gotas de lágrima dão a volta no globo enquanto no sonho embalada,
deságuas.