Recadinho pro casal da bicicleta no Rio Tavares

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Ouvi uma conversa de um jovem casal e seus amigos, num barzinho do Rio Tavares. A menina, de uns vinte anos, grávida. E o pai, igualmente  novo, apoiando uma mão na bicicleta e usando a outra pra tomar skol, dizia aos amigos sentados no bar que não queria que o bebê fosse uma menina, porque dá muito trabalho, imagina os caras dando em cima dela, êh. Os amigos e a mãe concordaram meneando a cabeça. Menina dá muito trabalho.


Realmente, querer ter uma menina não é pra qualquer um. Ter filho já não é pra qualquer um, ainda mais se for uma menina.

É preciso que os criadores da criatura sejam diferentes da sociedade média. Tem que ser um par mais adiantado, shiva e shakti, yin yang, mente aberta, visão holística. Tem que reconhecer a dinâmica social de exclusão/inclusão, a fabricação cultural do gênero.

Tem que ser um casal que ame o inteiro de si mesmo e das pessoas, menos crente nas cascas forjadas socialmente. Eles precisam estar dispostos a trabalhar em si mesmo seus machismos e feminismos predatórios. Dispostos a ir arrancando lá do âmago todas as frases erradas que já disseram sobre meninas e meninos, ali incrustadas pela cultura, e em que eles, quase sem saber, ainda acreditam.

Tudo isso para que a criança nasça num ambiente que ofereça condições plenas para a inteireza e subjetividade ímpar. Para descontinuar a longínqua cadeia da supremacia de um sexo sobre o outro, de um povo sobre o outro, do homem sobre a natureza. Para não fazer parte retroalimentadora dos mecanismos exclusórios e estigmatizantes.

Para dar à criança a chave de acesso ao seu poder, mantê-la fluente na sua dupla composição. Para que o ser possa ser. Livre.

Menino menina mulher homem, quê! Menos segmentados, mais conectados. Porque também querer ter um menino não é pra qualquer um. Ter filho já não é coisa pra todo mundo, ainda mais se for um menino!

Somos oito bilhões e o planeta é um só, precisando de seres humanos conscientes e ativos. Ter filhos é pra quem está disposto a fazer em si mesmo a mudança. Senão, use contraceptivos, sabe.