- Nem mesmo o nome?
- Nada.
A recepcionista responde à pergunta de Jeanne sem interromper o cigarro nem o canto lírico que ouve no radinho, ignorando qualquer informação sobre os locatários do prédio. A tentativa de matar Hitler antes que ele terminasse de destruir a Alemanha foi chamada de operação Valquíria. O que importam os nomes, me disseram hoje quando comentei que o nome da operação pode ser uma alusão à bruxaria. Eu tinha muita coisa pra fazer e não fui atrás pra descobrir, afinal o que importam os nomes perto de dígitos bancários. E tem mais, me disseram, nomes revelam muito, melhor não olhá-los muito de perto. Não é de se estranhar que o personagem de Marlon Brando, em Último Tango em Paris, tenha horror aos nomes, pois sua esposa Rose se suicidou sem motivos aparentes. Se uma esposa-flor comete um ato como esse fica difícil acreditar que se possa conhecer as pessoas. No projeto de Hitler o nome da capital do mundo seria Germania; o país acabou dividindo o seu nome em dois. O nome dos personagens de Marlon e Schneider mal são pronunciados durante a narrativa, mas a cena da manteiga é inesquecível. O que interessam os nomes diante do sexo? Teorias evolutivas podem explicar casos de ereção que antecedem a morte, e o fato é ainda mais intrigante se tiver acontecido com um oficial da SS. Maria Schneider é uma atriz esquecida, uma senhora sem sucesso e com ficha suja, que se diz arrependida por seu comportamento liberal. Em Vinegar Tom, peça teatral da inglesa Caryl Churchill, a culpa de um casamento fracassado é lançado sobre a vizinha Joan, acusada de bruxaria por ter hábitos inconvenientes para a época. Os erros parecem óbvios, mas só porque não estamos perto. Parecem tão distantes os nomes das coisas nomeadas, mas talvez o afastamento seja muito mais forçado por um instinto de sobrevivência do que um real vazio. Esse discurso deve soar como um ruído que pergunta aonde isso quer chegar. Do que nos rodeia, nem mesmo o nome sabemos; o nome da árvore no pátio, do passarinho que cantou agora pouco, do vizinho de quem se escuta a voz. Os discursos de ontem também acontecem hoje e parece que certos acordes encontrarão ressonância eterna. O bicho que corre pelo corpo inteiro vira mesmo um bicho carpinteiro. Joãos, Marias e Adolfos inferem algo em alguém; sensualizam e metem medo. Por isso mantemos distância. Existência implica convivência, que implica troca. A existência animaliza, na etimologia primeira da palavra: alma. Não dá mais pra semiótica que lança mão do referente. Lacan revirou Saussure e chamou a atenção pro limiar das coisas. Limites que se tocam. Mas e o vazio da pegada, como fica? O pensar subjetivo parece ter a capacidade de preencher as faltas, nem que por um átimo o quebra-cabeças se resolva para depois se desfazer. Por isso, os nomes precisam ser ditos, as coisas precisam ser pensadas; um filme de Bertolucci, uma peça de teatro, Tom Cruise nos cinemas, a história pessoal de um personagem histórico, o pássaro do fio do poste. Qualquer coisa e tudo, porque nossa voz fala através de palimpsestos. 'It's over and beggins again.': fim de filme, meia-noite, segunda-feira. Os nomes são primordiais, são sexo e comida. A vida é uma infinita sopa de significados e eu estou precisando experimentá-la com menos pressa. Valkíria por quê?