Eu vivi
Sob telhados
Anos e anos
Protegida de qualquer vento
Ou de sol forte.
Permaneci primaveras
Sem tocar nenhuma nova flor
E nem pude sentir o gosto
Dessas chuvas de verão.
Por onde andastes, menina
Em que canto tu estavas
Que eu não te achava
De modo algum?
Assisti a espetáculos
Do meu camarote solitário
Sem comentários e sem escolhas
Percebendo os movimentos do mundo
Da minha cadeira de chumbo fixada ao chão.
E não sorri o sorriso
E não disse a palavra
Quem me era esperada
Enquanto as paredes rachavam
E todo o telhado
Se desfazia em pedaços.
Então tu acordastes, menina
Quando meus gritos a ti chegaram
A tempo ainda
De te pegar nos braços
E trazer-te para fora.
Teus cabelos ao vento levados,
Pelo sol enrubescida tua face.
O cheiro destas flores te enleia
E sentes as pétalas de veludo.
Agora cantes
Que tu estás na chuva!
O cheiro de grama molhada
Na tua pele molhada
Faz-te mais forte
E faz-te plena.
Então me acompanhe, menina
Que sou o mundo
E sou a sua sina.
Não há mais telhados
Nem paredes
Não há nem escolha,
Há somente a imensidão
Dessa misteriosa vida terrena.