Comes e bebes

Do alto do salto no traje alinhado e o cabelo esticado, a moça zela a imagem de conservadora de vida ordinária de comedora de baratas clariceana, só que ainda mais sem graça, menos metafísica e mais prática. Comedida e comidinha, já que vomitar lhe foi historicamente negado, ainda menos estilística, só no arroto frouxo quase cômico, arroubo de bom otário.

Ela tem uma coisa de ser Macabéa, frequentando os espaços quase pedindo desculpas:"oi, desculpa por estar pedindo, mas me vê um pão integral e uma caixa de leite? Desculpa, obrigada". "Eu existo? Desculpa, obrigada por permitir, tá? Prometo não existir muito,"

Mas, tenho que admitir que ela sempre sai de qualquer bar com a cabeça mais erguida do que nunca, mesmo que o orgulho esteja no chão e o porre querendo dobrar-lhe os passos. Parece que descobre pertencer à realeza. A moça é uma bêbada extremamente discreta. Não fosse o olho fundo de quem se assombra no escuro do poço, jamais saberia que esse é seu estado alterado. De certa forma, isso viola os direitos e função dos bêbados de exercer o escracho, mas, ela é assim, não tem jeito. Fazer pose é a sua melhor e mais sincera maneira de mostrar que está mal.