Tormenta auto-existente



Hoje, antevéspera de aniversário da bela dama sobre quem não sei especificar qual o verdadeiro papel: para além de avó, certamente... também mãe, também amiga, bem como exemplo e ainda mais mistério. Somente agora, após quase cinco anos desde que partiu, é possível expressar qualquer coisa que não seja só silêncio resignado e saudade contida.

Acompanhar o seu processo de morte, desavisado e fulminante, foi um inescapável e doloroso processo de aterramento e de conhecimento emocional sobre assuntos ignorados até então e eis que ciclo de vida, ausência absoluta de controle sobre o tempo, sobre a vida que até o fim se mostra tão caótica quanto começa. Ou, em outras palavras, um desenrolar íntimo de aceitação da capenguice da humanidade e, claro, de si mesmo, em um mundo que enganadoramente sugere ser possível seguir algum roteiro. Não, a morte não é necessariamente bonita tal qual aquela que tem script.


Bem, de minha parte, não posso dizer que abracei tal carácter errante. Mas, posso falar a respeito. Agora sei de certas coisas feitas da opacidade da realidade da terra, como é, por exemplo, o amor. Amar é tanto de vida quanto de morte, porque implica, ao mesmo tempo, nascer junto com os nascidos e morrer com os morridos, equilibrando a alegria e a dor, em justa e igual proporção de celebração.


Foi este o último ensinamento recebido quando aquela mulher, aparentemente erigida em assombrosa fortaleza, deparou-se com algo ainda maior que a sua força de vontade. Suas últimas palavras foram uma pergunta incognoscível que explicaram, sem que se quisesse saber, a necessidade de acolher a fragilidade e, paradoxalmente, de nela reconhecer a única substância realmente inquebrantável.


Por isso, gratidão, amada, por teres nascido e morrido tão intensamente a ponto de se tornar corajosamente vórtice de transformações para si mesma e para os outros, em uma das quais foi preciso reconhecer em mim um luto capaz de me devolver ao chão e, depois, à rota de fluxos e de fluidez, em que o sentido não mais se encontra na busca exaustiva de uma inteireza completa, tão perfeita quanto inalcançável e cujo fim é uma congelante frustração.

Como resultado do irrecorrível limite e finitude - ou melhor, do tempo e do espaço -, o sentido da vida é forjado na quase desengonçada completude dos encaixes dos pedaços da existência - as experiências: potência a partir de que se geram as mudanças, a riqueza das possibilidades e a beleza de uma vivência (não por acaso, vó, foi contigo que aprendi o poder da auto-geração, minha querida tormenta auto-existente). Sim, a vida somente é.

Feliz aniversário, vó Anísia. Te amei de viver e de morrer, te amo de aceitação e de contemplação.
Minha mestra, minha ponte, namastê.

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