Enfim, chegou o dia em que é preciso dizer o dito com as cordas vocais tensionadas e vibrantes, para que o som não vague pelo céu da boca ou se deite nos lábios fechados. Vou dizer. É um dizer que é tão para mim mesma, tão visceralmente para mim mesma, que só resta ser dito aqui, porque não vejo outra forma de ser minimamente sincera. Escrever deixa as coisas mais sérias. E escrever num espaço onde virtualmente alguém possa vir a ler é como entalhar um mandamento, porque sabemos bem a facilidade com que os dedos alcançam o botão de deletar. Pois bem, agora vou dizer.
EU SOU UMA MULHER GORDA. Isso mesmo, capslock. Porque esse dizer precisa ser grande o suficiente para caber o que vou contar. Essa frase contém muita coisa, muitas histórias.
Lembro da primeira vez que me acusaram: "ei, Gabi, você tá igual uma grávida, haw-haw", eu estava em fila no pátio da escola, esperando o hasteamento das bandeiras. Tinha dez anos, uma baita hiperlordose e uma barriguinha estufada do almoço. Mas, definitivamente, eu não era uma criança gorda. Não se trata de um argumento do tipo "viu, eu não era gorda", o mistério é que sempre acreditei que tivesse sido uma criança gorda e, há uns poucos anos, ao rever fotos de infância, deparei-me com uma menina até magrelinha. Fiquei surpresa: ué, onde estava a criança-balão que eu jurava ter existido?
Aos treze, número mágico, fui bonita. Iniciei um processo de consciência da beleza dos meus longos cabelos e do corpo em formação. Eu me admirava. Tirava fotos no jardim da casa. As pessoas estavam me olhando com outros olhos. Algo incrível acontecia e eu experenciava. Infelizmente esse período de amor não durou muito porque uma espécie de lei maldita havia decretado "Não terás auto-estima". Passei por um problema de saúde que resultou em muitos remédios, internação, inchaço e vários quilos a mais. É sabido que uma maré de azar aos treze anos pode se transformar em onda de tsunami. Em uma festa de família, lembro, sentia-me péssima por ter uma aparência tão desagradável e comecei a chorar desesperadamente. "O que foi?"- perguntaram alguns parentes. "Nada, estou com o joelho doendo". Mas era luto por ter perdido a aparência desejável. Não havia alguém com quem pudesse conversar. De certo modo, a vaidade forjava uma espécie de tabu familiar. Beleza tinha sido preocupação das mulheres que deram errado e não era algo com que fosse autorizado se preocupar.
Daí para adiante, a relação peso e amor-próprio foi ladeira abaixo, ou melhor, balança acima. Mudei de cidade e a sensação de não-pertencimento era amenizada com biscoitos recheados. A adolescência parecia um longo sono... A parte boa é que eu estava ficando má. Irônica, cara-de-pau, orgulhosa. E estava ficando sedutora. Conseguia equilibrar baixo nível de amor-próprio com alto nível de esperteza. Possuía uma noção afinadíssima do valor que cada um adotava como identidade. Aos dezessete, eu era uma leitora voraz, musicista e poeta, não dava a mínima para isso e usava essas características para jogar o jogo dos adolescentes da minha época.
Infelizmente, isso não me impediu de ouvir, ao longo dos anos, todo o tipo de julgamento sobre meu corpo: aqueles em forma de conselho "tem-que-emagrecer" ou "tem-que-fazer-academia"; os julgamentos aparentemente neutros "você-tá-gorda", "você-tá-com-barriga" e os expressamente agressivos: "precisa-consertar-esses-pneu", "cavala", "cavalona". Os julgadores formavam um grupo heterogêneo principalmente composto por homens, embora as sentenças, algumas vezes, tenham vindo de mulheres. Foram desconhecidx, conhecidx, amigx, namorado e até parente. Lembro de uma tia dizendo: "COITADA! Puxou a coxa enorme da nossa família. Tanta coisa pra puxar e conseguiu ISSO!" Naquele dia, o amor que sentia pelo meu coxão se desintegrou e escorreu pelo sofá da casa da avó. Acresci coxa à lista das minhas partes repulsivas.
Nessa lista, nem coxa ou barriga eram sequer o alvo principal do meu ódio. O foco de desespero era a bunda. Uma grande e projetada bunda que não fazia o menor sentido naquele corpo. Uma bunda pontuada por furinhos de celulite. "bunduda", dizia a amiga; "bunduda" dizia a tia, repetidas vezes, repetidas vezes. Aos dezoito, iniciei uma bunda-sacra que se mostrou completamente neurótica e obcecada. Na minha mente, não fazia nada demais, apenas queria ser magra e ter uma bunda lisa porque aí seria tão-tão feliz. Emagrecer não era exercício fácil, minha bunda se negava a ser lisa e teimava em diminuir de tamanho.
Como boa portadora de determinações em nível obsessivo, eu passei dos dezoito aos vinte e quatro anos tendo a bunda como o foco principal da guerra contra o meu corpo, embora todo o resto também fosse campo de batalha: massagens, cremes, tratamentos estéticos, choque, ultrassom, injeção de veneno, cápsula de veneno. Médicos, esteticistas e nutrólogos ajudavam na minha própria escravidão. Eram pessoas licenciadas para tentar me deixar melhor. Frequentei médicos estranhos e perversos cujos tratamentos deixaram sequelas que carrego até hoje, como cruzes na estrada: os remédios para emagrecer contribuíram no starte das crises de pânico; as duas cirurgias contra a celulite, com um médico macabro, deixaram cicatrizes suspeitas. O que ele injetou em mim? Não sei e sinceramente tenho medo de saber. O médico nutrólogo, ouvi rumores, era conhecido por fazer as fórmulas com um componente usado em raticidas.
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CONTINUA NA PARTE 2