Ela é meu elo perdido,
Helena.
Mulher de passos pequenos e rápidos,
de riso apertado,
cabelos encaracolados.
Corpo pequeno
Braços finos, porém fortes.
O rolo amaciava a massa até que os tortéis fossem finas camadas.
Envolta em mistério,
muito sorria e pouco falava.
Viúva desde que a conheci.
Minha mãe acha que me deu o nome que levo
por conta de uma personagem de novela.
Eu acho que minha mãe,
largada na infância por um pai errante,
filho dessa mesma Helena,
inspirou-se no sorriso misterioso
daquela mulher silenciosa e resignada.
Talvez quisesse compreender,
talvez quisesse aceitar,
que a vida podia ser assim tão torta
e ao mesmo tempo tão deliciosamente recheada.
Mas, bisa,
teu silêncio diante do sofrimento,
o isolamento imposto às minhas matriarcas abandonadas,
é herança que não mais aceito,
é história que não mais convém.
Ah, Helena.
Na beira do rio do Peixe
eu te vi inteira,
porque uma sábia avó permitiu
a comunhão primeira:
entre uma geração que se projetava
ser mulher inteira
e a outra que trabalhava sob a veste
da constrição costumeira.
É a partir de tua história mal contada
que sigo em frente,
e tenho um mesmo queixo pontudo que diz:
somos fortes, somos bruxas,
somos da linhagem da imperatriz.
Permita-me ser nova filha
que se propõe acolher tuas maneiras erradas,
para ressignificar o amor que vi imposto
naquelas ceias agridoces jamais igualadas.