Optica

Tudo o que o olho vê é sempre somente uma parte.
Não é o olho que vê.
São as estrelinhas microscópicas feitas de gelatina.

Bilhões de micropontos correm e piscam num túnel escuro.
Quando a janela abre, tchum, lá vem uma mancha.
Isso quer dizer alguma coisa.
Sempre é preciso querer dizer alguma coisa.

Uma mosca enxerga muito melhor do que um humano.
Um morcego, ao enxergar pior, enxerga mais.
A minha casa, quando a vi do alto, não tinha árvores; eram cercas.

A formiga passou pela minha mão e não viu a minha mão.
A borboleta não se deu conta de que meu carro ia na sua direção.
Na trajetória das borboletas e das formigas, avolumam-se extra terrestres.

Eu notei que aquele filme era colorido demais pra ser verdade
e percebi que aquela poesia era muito cinza pro mundo tecnicolor.
Mesmo assim, tanta coisa passou ao largo de minha órbita estreita
que nem sei se poderia emitir algum juízo (juízos são outros tipos de recorte).

Não sei exatamente como se projetou essa cena-
no centro demais pra ser background,
marginal demais pra estar no foco.
São hiper metros de distância entre pertencer e estar a caminho.

Quando observo de fora, todos parecem tão encaixados,
enquanto que eu, de olhos fechados, 
prossigo numa viagem apenas minha.
Bem ou mal, a luz que não encontra fundo, viaja até o infinito.

Vejo, não faz diferença, eu, moscas, morcegos, borboletas,
aos tropeços e esbarrões sob a ordem do ex cêntrico evento
- mesmo que o ego assim não entenda - 
o projeto imperfeito de qualquer tipo de existência.