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Ontem nele havia um corte de um centímetro. Era um corte profundo, quase dava para passear o olho pelas camadas de dedo.
Hoje, acordei fungando loucamente. Doía a face e a respiração estava trancada. Tremeliques de frio. Gripe, enfim.
Mas quando olhei para o dedo, não pude parar de pensar no incrível trabalho que o corpo tinha realizado, e nem foi preciso pedir nada. Lembrei do primário quando me ensinaram sobre os leucócitos, a professora dizia que eles eram como um exército que expulsa o invasor. Olhando para o dedo tive a comprovação. Quando cheguei perto do corte, estava lá uma imensa equipe trabalhando, apta a consertar desde pequenos buracos até grandes estragos.
De um dia para outro, o interior da fenda já não estava mais aberto: lá ao fundo um traçado mais escuro ligava as partes cisadas e a trama continuava subindo, aproximando as metades.
Na superfície, no lugar em que havia a abertura explícita do corte, duas linhas de pele quase se tocavam, vermelhas e quentes do trabalho pesado.
Eu estava nessa divagação quando tive um daqueles ataques de espirros feiosos em que, para garantir o asseio do nariz, ou a pessoa se pendura na pia ou separa um rolo de papel higiênico que dê conta.
Mas acho que a história do dedo me deu algum insight porque não fiquei com raiva ou frustrada por conta da gripe, que são as sensações que me acompanham quando fico doente. Na verdade, eu senti um orgulho danado do meu corpo ser tão foda, de tão bem dar conta dos contratempos, de me mover inteirinha para nos defender de um vírus.
Por isso eu e meu corpo temos e teremos cicatrizes várias. Mas, há de se admitir que as feridas da alma são mais difíceis de fechar. Na minha experiência, algumas dessas foram cuidadas com muito amor-próprio e persistência. Cicatrizaram bem. Outras estão aí, incomodando. Coçam...
Por que não somos imortais? Veio a pergunta como um raio, não sei da onde. Fiquei momentaneamente paralisada. O corpo é tão incrível, mas morre.
Bem, pode ser que o problema esteja na pergunta, já que o fato é que todos morreremos. Indignar-se com a natureza realmente não sei se resolve, apesar de a ciência (ou o mercado?) apostar que sim. Daí, na carona, a gente aposta bastante nisso e procura mil e uma maneiras mágicas de prolongar a juventude.
De novo, o fato é que morreremos. Pode ser que o sem-saída esteja nessa afirmação, pois tem um engano no tempo verbal usado. Na lenda da mulher-esqueleto, quando o homem aceita a companhia da morte, eles se unem e passam bem a vida, nutrindo-se um ao outro. Sem a mulher-esqueleto, ele é vazio. Sem o homem, ela é apenas ossos, sem vida.
É isso, então. Morremos o tempo todo. A morte nos habita porque está contida na vida. A morte são minhas cicatrizes, meu corpo quando fala ou espirra. A morte é minha vida; minha vida é minha morte. Perfeitamente indissociáveis.
Não falo disso assim facinho, afinal de contas sou ocidental. Mas faz sentido e liberta. Ver o corpo como um organismo de vida e de morte e que, por isso, pulsa, arde, incha, cospe. Como se corpo não fosse a matéria, mas o movimento incessante e espiralado, vai e vem, som e pausa, comprometido com a vida até seu último.
Senti tanta confiança no corpo, como quem descobre que embaixo da cama escondem-se tesouros.
Devotamente, fiz um chá de gengibre que o ajuda a matar os intrusos, adocei com mel para ajudá-lo a se desfazer do muco. Apaguei a luz e deitei lentamente minha cabeça pesada para tentar ouvir seus recados e descobrir nossas idiossincrasias. Respeitei o mistério e olhei para o dedo com uma gratidão inédita.
Fiz isso tudo viva. Absolutamente viva.
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