SOFIA
A primeira vez em que me relacionei com gatos foi na casa da minha vó Anísia. Eram umas duas ou três gatas, que, para ganhar carinho, recostavam a cabeça na perna, daquele jeito que só os gatos fazem. Eu chegava na casa da vó e ia direto pro porão afofar as gatinhas.
Não lembro por quais motivos, mas o porão era sempre um lugar onde eu podia ficar por muito pouco tempo. Aquelas gatas eram uma trégua adorável na rotina de uma criancinha moderna típica: limpinha, superprotegida e completamente atarefada.
Nunca tive gatos. Sempre tivemos cachorros. No fundo, era o meu irmão mais novo quem tinha os cachorros e que, por alguma razão, não eram meus, eram dele...Popy, Ursinho Pólo, Silver, Bimba. Claro que eu adorava os cachorros, mas eu não sentia a ligação, aquele traço indefinível das relações que sabemos diferentes. Arquetípicas?
Aos treze anos, enquanto me tornava uma gatinha de cabelos compridos com aquele ar ingênuo e instigante das pré-adolescentes, apareceu - não sei como nem de quem, um gatinho branco que eu abraçava o dia inteiro. Sumiu antes de se tornar adulto- não sei como, nem por quem.
Foi o único gato que tive até aparecer Sofia. Antes disso, fiz algumas tentativas de acolher gatos abandonados. Mas minha família nunca gostou de gatos. Sumiam com eles. Ou os gatos se mandavam por conta dos cachorros.
No dia 30 da virada para o ano em que eu completaria 30 anos, fico intrigada com um miado insistente durante a manhã de limpeza do terreno da casa. Mas não vejo nada. À tarde, pego o caminho da praia. No meio dele, o mesmo miado insistente. Olho pra cima e lá está uma linda gatinha, agarrada a um galho torto. Subo a árvore, desço com ela e já não consigo mais soltá-la: sou tomada por um amor inexplicável. Era assim a gata que sempre quis ter, rajada de amarelo, branco e preto.
Perguntei aos vizinhos, tentando encontrar os donos, e descobri que ela fora abandonada numa casa de veraneio. Levei pra casa como se conduzisse um tesouro e, a despeito da desaprovação velada do meu marido, cuidei da minha gatinha, limpando a culpa, o medo e a caixinha de areia com kiboa, a cada doze horas.
Sofia adaptou-se à casa com tremenda facilidade. Fez do emaranhado de capim-limão o seu refúgio. No pátio tinham árvores e insetos à vontade. Parecia que Sofia e os nossos cães Truby e Darwin não teriam dificuldades em se acomodar nas diferenças, pois espaço não faltava.
Não sei dizer o que deu errado. Se foi a tensão constante entre espécies distintas, o medo do imprevisível, a realidade de ter muitos filhotes ao mesmo tempo, a minha hipocondria, a ânsia pelo controle e segurança, não sei! Tive de permanecer Sofia praticamente trancada em um banheiro.
Na noite passada sonhei que minha avó Anísia, que já é falecida, estava doente num porão. Eu não podia vê-la e não tinha como fazê-la subir.
Ela acabou subindo pelas mãos do meu irmão e, quando falei com ela, estava brava por estar naquelas condições de quem fica em um porão. No sonho, eu precisava dar-lhe a notícia de que iria morrer, mas não sabia como. O sonho era desesperador. Acordei sobressaltada, com uma angústia no peito.
Mas, novo dia – eu precisava seguir na minha busca por alguém que pudesse adotar Sofia. Imprimi mais cartazes e verifiquei os cadastros de adoção de gatos. À minha revelia, o dia estranho foi seguindo.
No primeiro pet shop em que paramos, havia um homem com uma filha de sete anos, interessados em adotar uma gatinha. Ele veio até a minha casa e Sofia foi levada com eles, meio brava por estar presa na caixa de contenção, ou brava pela minha fraqueza, ou pela realidade ridícula de um espaço enorme que não abrigue diferenças ou aceite o imprevisível.
Chorei como se tivessem arrancado um pedaço da minha pele, mas era o melhor pra Sofia. Mesmo que fosse um quintal menor, haveria mais liberdade. Tive de me consolar. Imaginei-me em outra dimensão onde estivesse livre para cuidar de Sofia. Onde pudesse conciliar tudo o que amo.
Hoje faz três meses e um dia que faleceu a minha avó que cuidava de gatinhos no porão. A avó que vi morrer. A avó que conciliava gatos e cachorros. Hippies e workaholics. Amores bandidos e celestiais. Relações de sangue e do acaso.
Hoje uma linda família levou Sofia, a deusa imprevisível.
Bênçãos a elas, por toda a vida.