Videira

Impossível determinar quantos degraus subi e desci naquela cidade desvertebrada. Homem do saco, biblioteca e ballet são o mesmo resultado de fatores diferentes. Sempre fui mal em mate mães temáticas. Contava nos dedos e gessos a incapacidade absoluta de resolver contas, enquanto absorvia folclores e dissolvia culpados, desde cedo, às vezes o contrário. Eu fui uma menina que subia morros absurdos. E descia deles para amassar uvas imaginárias. Eu ia pra escola de microônibus e omnibus pareciam frases desgovernadas.

Aos poucos, dei-me conta de que a sintaxe absurda das voltas era o que levava a algum lugar, às vezes, ao contrário. No lugar nenhum descobri a coisa alguma, a paixão: algemas silábicas em degraus fonêmicos, sapatilhas de gesso em iemanjás bachianas, harmonias completas em divisões subtônicas.

Certo dia, desci aquele morro como se fosse água de harpa e, quando olhei, tudo pareceu névoa clássica.

Corri pra longe.

Por algum tempo, supus-me branca e engessada. Que engano!

Jamais sairá da pele aquela tinta de uva rosada, envergonhada e rosa. Ceifa e suco. Videira madura e nova; folclórica: la donna è mobile. Musical, tragicômica, familiar. Neta de um pé de uva e de alguma culpa católica. Vinho novo sem descanso; malbec com corante: contemporaneamente latina.