Síndrome de caderno vazio

Em entrevista para uma revista de língua portuguesa, perguntaram a Saramago se ele escrevia para não morrer, no que ele respondeu: sim, também; mas escrevo mesmo para tentar entender a vida.

As formulaçõezinhas desse blog vão em rumo parecido, talvez o interbalaio infinito de significantes por aí blogados, tenha todo ele essa serventia. Saramago é um octagenário tentando entender a vida. Eu, quase balzaquiana sem nome tentando não morrer. Mas ele escreve e deve entender alguma coisa da vida. Eu não escrevo, talvez por isso morra, e morra sem entender nada.

Não sei quando a sombra do anjo negro passou a me acompanhar como alguém acompanha um amigo. Talvez tenha sido o episódio de quase-morte ao despencar de uma janela. Talvez tenham sido as pneumonias recorrentes que me afastavam por semanas. O aniversário de três anos comemorado com soro nas veias. A alergia insuportável daqueles invernos insuportáveis. As assustadoras paralisias faciais, o episódio de uma suposta osteomelite que obrigou que eu passasse o final de semana da festa junina no quarto de um hospital, aos treze.

Diante disso tudo, meu corpo se manifestou e fez mudar a continuidade da história, aprendeu a se defender dos vírus e bactérias que o martirizavam, e, às vezes, me parece invencível. Forte, resistente, reponde bem a corridas, caminhadas, alongamentos, movimentos de dança. É sadio e generoso, se fez escultura bonita, curvilínea, cabelos resistentes, pele macia.

Só não conseguiu se livrar da sombra do maldito, impondo medo e criando paranóias. Os sustos da infância, em que eu acordava com o coração na boca e depois não dormia mais com medo de estar morrendo, foram um sinal dos pequenos infinitos momentos de inferno que viriam depois. Cada dor é a dor impossível. Cada batida é a última. Cada indício é o do mal. Cada possibilidade de problema é o próprio problema. Qualquer probabilidade é a certeza da morte.

Hoje já existe um nome pra isso: síndrome do pânico. É mais um nome/conceito/categorização = generalização; não explica tudo, não serve pra todos, mas é isso aí. Remete a ataques histéricos, comportamentos desproporcionais, descargas de adrenalina, desequilíbrio na produção de serotonina. Resposta do corpo diante dos sintomas do corpo; resposta aos sintomas em forma de medo; resposta do corpo ao medo potencializando os sintomas. Desespero pela morte que se avizinha. Certeza da morte imediata.

Os livros que não li, os beijos que não dei, as desculpas que não disse, a viagem que não fiz, a mudança que não houve, a frase que calei. As perguntas do 'por que': tempo, vida, Deus, destino. As hipóteses do 'se': menos trabalho, menos estresse, menos cobranças, mais lazer, mais aceitar a vida, mais viver. O pânico não é o da morte, é da culpa.

Quando menos se espera, passou! Como se tivesse mesmo morrido, voltando em vida. E como se tivesse, no mesmo momento em que se faz vida, esquecido de que já se morreu. O irônico dessa volta é que, tendo atravessado uma morte e tendo-lhe escutado os avisos todos, parecem eles anacrônicos, ultrapassados. Longe do medo, a vida segue como sempre. Uma busca atrapalhada pra continuar seguindo pelo caminho mais viável. Questionamentos fáceis para respostas óbvias: apontamentos de agenda. Leituras acadêmicas. Protocolos vazios preenchendo faltas.

Com que roupa vou amanhã? Já sei, com a roupa do disfarce. Se perguntarem de Saramago, o que vou responder? Ele usa elefantes milagrosos pra entender a vida. Se perguntarem de Benveniste, vou dizer que quem não fala é que está morto. Se perguntarem de Vigotski , é o outro que te permite entender a vida. E se perguntarem de mim? Graças, que não perguntariam. Não tenho nada escrito para poder responder.