Incurso


Éramos três que, tendo sempre caminhado em linha dura e reta, decidimos um dia – sabe-se lá porquê – fazer a curva e mudar o rumo do passo.

Pé no chão, lenço amarrado na cintura, e de repente, a música: os tons desdobrados ao infinito dentro da oitava, ritmados sobre o mistério de uma outra lógica – sinuosa, dobrável, multidimensional, exponencial. Feminina.


Descobrimos, e foi aos poucos, que mesmo dentro da dureza da rotina, de um ponto ao outro cabem todas as curvas.

Ontem, exaustas de tanto dançar, deitamos no chão do palco, braços pra um lado, pés pro outro. No silêncio profundo, contemplamos a pérola se construir lentamente, com cada não-palavra.


Uma de nós abriu a concha e, cheia de plenitude, disse: como não percebemos antes? É a falta de ângulos que faz a terra girar...