Precisava te falar o que vou falar. Na verdade, estou sussurrando porque não gosto de violência, já basta o estralo que fatalmente se ouvirá seguido ao tapa das palavras. Eu que sou tão meiga, é o que dizem desde que nasci, embora sempre tivesse duvidado de algo assim tão frouxo. Até queria retroceder e não te falar, mas a chuva despenca motivos. Negar o que vi é me negar também. Veja que isso já demonstra minha preocupação contigo, já são minhas apologias. O que você vai pensar de mim quando te disser. Justamente é sobre isso que escrevo, sobre as desculpas frágeis que dou.
Tudo aconteceu ontem quando ele me beijou no rosto e disse, você dança bem. Eu retruquei rapidamente: imagina, você é que dança bem, obrigada. Fui embora. O importante nisso é que não respondi, retruquei, quase dando de dedos. Você é que dança bem, idiota, miserável, obrigada. Eram palavras de ódio? Não teria motivo, pois nunca o tinha visto antes, foi só uma dança num lugar de pouca luz. Mentira. Era bem iluminado e eu poderia ter lhe visto o rosto, mas mal olhei. Eu sei que você já percebeu os meus disfarces, mas a minha vantagem é que eu disfarço que disfarço e meu disfarce não-disfarçado confunde como linhas de um labirinto. Ainda me resta uma sombra. Mas a luz cegava o olho e eu não vi ninguém. Estou mentindo novamente, pois a luz não era tão forte e eu poderia ter visto o rosto dele, mas não quis olhar.
O que neguei talvez fossem as roupas desgastadas, o rosto suado. Você é que dança bem, pobre, cafona e grudento, obrigada. Se fosse isso, tão simples. Preconceito de classe ordinário, um resto de orgulho burguês, quem dera. Não posso tomar esse desvio, pois preciso te dar o tapa. Além do quê, se analisar o passado, sempre me dei melhor com faxineiras do que com chefes, mas também é que eu nunca quis me dar bem com quem supõe me comandar. Anarquista, talvez, mas de meia tigela, porque a calma irresignação se confunde com doçura e por algum motivo não desminto a mentira, eu que sou tão delicada. Meu disfarce. Olhei pro chão pra não lhe ver os olhos que sei que tirariam minha roupa. Obrigada, foi tão verdadeiro quando eu disse, mas o que pensei foi me desculpe. Sei que estou adiando o que quero dizer, mas é que já são minhas apologias, tenho medo de que você não entenda. Para que eu possa chegar à verdade, teria que te contar o que aconteceu antes do beijo no rosto.
O que houve antes, foi um delírio. Êxtase de pulsos, batuques e coxas. Cabelos em transe. Alguém fez de mim peça dobrável, cubo mágico de carne branca, um fio sem vértices. E eu estremeci, delirando sem bússolas nem caderno de anotações, nem olhos abertos escrevendo giro pra esquerda em quatro tempos. O ritmo eram todos os ritmos, o corpo era indivisível. Cadência irremediável de braços e pernas. Insuportável, que cara ridículo, foi o que falei durante a saída, rindo nervosa. Meu disfarce. Não posso mais me calar porque mastiguei pimenta e esqueci de fingir. As palavras retorcem meu esôfago, preciso me desculpar profundamente antes que elas cheguem, mas sei que é tarde: senti o calafrio imperdoável do corpo. A ponta imperdoável do gozo infinito. A chave intolerável da liberdade do corpo. Dói o tapa, mas acontece que o tapa é sempre o que ocorre antes dele mesmo e a dor que você sente é a de um tapa sempre a ser dado. Também é por isso que preciso me desculpar sempre. Justamente, apologias.
Você é que dança bem, quero teu corpo inteiro em mim, teu suor e sangue, obrigada. Jamais sem culpa. Tudo bem se fosse ménage a trois planejado por um tal de ambos; melhor ainda se eu estivesse fazendo cara laissez-faire. Cenário perfeito de um prazer indescritível muito mais porque inexistente. E se, mas nunca se é. A mentira usa tão pouca roupa que ninguém percebe que é mentira. Paro por aqui, sinto medo. Preciso do teu perdão, senão terei que te dizer que não sei. Quando você me perguntar, vou me calar, porque a incerteza do perdão me rasga as cordas todas. E eu despenco no abismo. Penso agora que não posso terminar isso, é que termino muito mal tudo que começo, basta olhar minha mão. Dedos que pararam na metade. Mas eu quase enfiei o dedo na cara dele, você é que dança bem, obrigada. Era ódio porque era desejo. Não só desejo, porque ele sempre vem acompanhado. Era desejo porque também era culpa. Meu corpo grita, me desculpe. Tão meiga, é o que dizem desde que nasceram, e me vestiram de disfarce. Corri envergonhada pra detrás da cortina, obrigada. Eu danço assim mesmo quase parada, obrigada. É que não gosto de lugares assim tão cheios, obrigada. Você me ama, obrigada.
De fato, não sei se quem me obrigou foi também quem me abrigou. O pior é que é muito provável, desde o primeiro dia. Acho que foi por amor. Penso isso pra assegurar minha culpa e talvez para que o tapa doa com toda a força das células dos meus dedos incompletos. Por amor alguém me negou a dança. Por amor alguém me usurpou a maravilha da simplicidade do corpo e, em nome disso, alguém espetou o destino nos meus joelhos. A mão já está a caminho, irrefreável. A vergonha me corta as cordas, eu paro de dançar. Você é que dança bem, obrigada, tua pele também é minha, mas preciso ir embora porque a culpa de sentir a simplicidade completa do corpo me joga no precipício. Finjo não ter alma, porque se me descobrirem a alma, descobrirão o calor das veias. Disfarço porque disfarço, não gosto de violência. Nem vi o rosto e, quando dancei, foi sem me mexer muito, então não tem porque cismar comigo.
A verdade é que danço bem, imagina se eu pudesse me mexer. Alguém imaginou por mim e me espetou os joelhos, então eu caio e sinto culpa. A mão segue ainda mais decidida quando indecisa. Meu corpo é minha única possibilidade de liberdade porque é o único lugar onde cabe a alma. A mão pressente o espasmo. Você teve medo quando o doce inundou minhas papilas naquele dia ermo, morno e longe. Um medo tão bobo, como pode? Se era justamente você uma peça do cubo mágico. Um medo tão certo. Talvez eu tivesse ido embora levando uma maçã. Você agiu covardemente porque não quis arriscar. Por isso, fiquei louca, cortei tua cabeça, queimei nossos filhos, bordei mantas sem fim. Foi de tanto não dançar. Foi por sentir desde sempre, do primeiro dia, me atravessarem olhos oblíquos. Olhar que me cobriu de disfarce e que agora, esquecido de que traz na mão os vestígios das agulhas, quer que as centauras dancem sua dança! Eu sei, senti isso quando a tua pele conversou com a minha naquele suspiro. Desejei teu corpo e desviei meus olhos porque desejei tua morte. Eu, que tão meiga.
O tapa que ainda não dei queima minhas mãos. É que o motivo do silêncio faz arder meus dedos. Desvio o olhar porque me vejo nos teus olhos. Fui eu que ajudei você a jogar fora o pote de mel. Meus dedos espetados sangram conivência branca. Tudo por medo da solidão, desde sempre. Desde mim, desde ti. Não posso contra a solidão. Me sinto nua e corro em direção à cortina. Ódio de mim. Suspendo os dedos no ar. Melhor encontrar um disfarce, uma apologia qualquer que me salve da verdade. Minha mão pousa estralando doçura ressentida. Essa conversa teria que ficar pra um outro talvez. Você é que dança bem, obrigada.