Comunhão

Quero matar uma vaca. Escolhê-la, a dedo, postar-me a sua frente, pedir para que alguém a segure pelos chifres e meter-lhe a faca na garganta.

Quero matar uma vaca. Que esteja no pasto, à beira de um fio de água, escolhê-la a dedo, a mais viçosa, pelagem marrom e branca, amarrar-lhe os pés, pedir para que alguém a segure pelos chifres, então olhar o bicho, seus olhos doces e tristes, aguardar suas tentativas de se desgarrar das cordas, aproximar-me em lento ritual, meter-lhe a faca na garganta e ouvir seu mugido de dor, o último de todos, sons de vaca que minha ignorância irremediável nunca permitiu entender.

Quero matar uma vaca. Que esteja no pasto, à beira de um fio de água, escolhê-la a dedo, a mais viçosa, pelagem marrom e branca, amarrar-lhe os pés, pedir para que alguém a segure pelos chifres, então olhar o bicho, seus olhos doces e tristes, sua face ancestral, o mistério infinito por trás de animal tão manso. Quero sentir raiva da calma insondável da vaca que não teme a morte, quero desejar que ela se solte das cordas, que me mate com coices por vingança, quero me prostrar de joelhos às patas de bicho tão bondoso que se deixa transformar em proteínas para cérebros estúpidos.
Tolos, vaca, somos todos muito ignorantes e nem te agradecemos, minha linda vaca. Botamos um cara na cruz e depois o comemos todos os sábados por dois mil anos achando que era a purificação. E após comê-lo, vaca minha, te comíamos um domingo inteiro, teu corpo nomeado todo, pedaços bem ou mal passados, grandes, multiplicados, uma vida inteira desfrutando de ti, vaca preciosa. Nenhum obrigado. Nenhum sinal de reverência. Pretensos donos das vacas.

Não posso mais comer o que me come. Consumo a vaca enquanto o mundo me consome. Estou vazia, vazia. Quanto mais vaca eu como, mais cheiro de bosta eu sinto pelos cantos todos. Cansei de comer a vaca sem ver a vaca. Tudo o que eu como não tem cara alguma. Todos os rituais que davam sentido já vêm embalados. O mundo precisa ver a morte de perto. Não haveria tanta churrascaria se precisássemos golpear o couro do que comemos. Nem tantos infartos. Nem tantas lojas.

Quero matar a vontade da vontade e poder conviver com criaturas sem que elas precisem parar na mesa. Consumimos tudo. Até os cachorros foram engolidos e viraram essa massa estranha da mesma cor e mesmo tamanho de rabo. Ah, malhada querida, tão divina na sua simplicidade, desculpe essas bocas cada vez mais abertas, engolindo tudo o que os olhos vêem. É porque por dentro já não temos mais nada a oferecer.

Essas são palavras da salvação: glória a vós, senhora vaca.