Da sala de atendimento, reconheci a voz estrissoante que vinha do corredor. Suspirei paciência, ajeitei-me bem no encosto da cadeira e ela abriu a porta, tremendíssima:
- Boa tarde, quero saber se o juiz terminou o meu processo.
- Pois não, dona Ondina, sente-se que eu vou verificar o andamento.
Tudo nela combinava extremamente, pois a repetição se repetia das frases ao fio de cabelo. Não tinha escapondina, porque todos os dias, meio-do-expediente, haveria uma longa ondinação. Dia seguinte:
- Boa tarde, quero saber se o juiz terminou o meu processo.
- Pois não, dona Ondina, sente-se que eu vou verificar o andamento.
A mesma blusa de viscose alaranjada, mesmíssima calça bege. Enquanto eu puxava os dados do processo, Ondina desfiava as lamúrias da sua vida difícil. A ondistória começava na morte do marido e terminava nos xingamentos à justiça que não funciona. Ondina estava certíssima, mas eu bem pouco podia fazer por ela. Como a fase dos xingamentos costumava me irritar, era obrigada a intervir, quase concordando:
- Não fui eu quem sancionou os códigos processuais, me desculpe.
A mulher conseguia me deixar penalizada porque era pessoa dinada mesmo, só em ver a roupa-resto meu coração virava um farrapo. Por dó, mas também por muito querer me livrar da ondinatice, eu atendia aos pedidos dela bem rapidinho, juntava as petições, expedia os ofícios, fazia conclusão ao juiz. A Ondina me ondenava.
A atipia do caso nos fazia bem, sacudia a burocratina do cartório. Os momentos em que ela estava por lá viravam uma ondiversão. O auge eram os pedidos surreais:
- Trouxe a reza de Santo Expedito pra vocês colocarem no processo.
- Não, dona Ondina, o estado é laico.
- Não tem problema, filha, esse santo dá jeito em qualquer doença.
Quando a argüição ondinosa começava, não tinha quem a convencesse do contrário. O jeito era fingir aceitar a prescondinação e satisfazê-la de algum modo. Não foram raras as vezes em que sacudi ramos de arruda sobre as peças processuais ou persignei-me com o processo em sinal da cruz. Aos ondenamentos impossíveis de atender, eu retrucava com invencionices bem duvidosas:
- Ainda não consegui falar com o Lula, dona Ondina. Vou ver se tento amanhã novamente.
Assim que o farrapinho alaranjado ia embora, cambondineante, o cartório meneava a cabeça e largava um comentário malanbondoso:
- Essa Ondina não é gente!
Um dia vi a Ondina sentada no atendimento do cartório da Fazenda Pública e me bateu a curiosidade em saber que tipo de ação ela teria por lá. Digitei o nome completo do pano-laranja no sistema de busca do judiciário e fiquei surpresa ao ver que ela tinha quase quinze ações na comarca. A solidão e a sensação de injustiça trazidas pela morte do maridãondina foram compensadas através de ações contra companhias telefônicas, bancos, município, estado, operadoras de cartão, seguradoras. Judicar era o seu passatempo. Percorrer os cartórios assegurava a ela um sentido de existência.
Foi o que pensei olhando os extratos das ações, julgadas procedentes quase todas, alvarás com quantias razoáveis expedidos em seu favor, ações transitadas em julgado em tempo recorde. Uma onditeza! A calça bege andante tinha um pé na loucura mas o outro sabia encaminhar destramente os pedidos jurídicos. Como a intriga estivesse formigando os meus pensamentos, não tive dúvidas, vasculhei os processos ondinianos e descobri o segredo implausível. Ondina Farias Lima, registro da Ordem dos Advogados número 1296-2. Pensar que ela me fazia ler os despachos em voz alta porque dizia não entender os montes de letras. Ondinária, porém, coerente. Ondina não era mesmo gente, era personagem.