A via-crucis da palavra em Clarice Lispector: a revelação do eterno através da barata morta

(nem tão breve divagação literária acerca das baratinhas de Clarice)

A narradora do conto “A Quinta História” prepara uma mistura de açúcar, farinha e gesso e, com ela, mata as baratas, enquanto que, em “A Paixão segundo G.H.”, a narradora discorre acerca da epifania que lhe ocorreu ao provar da barata morta. Em ambos a barata é a personagem antagonista que desencadeia a ação narrativa. Mais ainda, a barata é força motriz que ultrapassa o texto, interligando um processo psicológico íntimo que parece já iniciado no conto e que culmina no romance. O que seria o essencial de Clarice, revelado pela barata? Para responder a essa questão, são necessárias algumas noções, representações, pontos de intersecção:

1- Ordem, desordem e reorganização:

A barata apresenta-se, desde a “A quinta história” como símbolo da desordem. As baratas “roíam a casa tranqüila” da narradora. A simbologia reaparece em “A paixão segundo G.H.”: a narradora diz, no inicio da narrativa, “tenho medo dessa desorganização profunda”, referindo-se ao que aconteceu depois de comer a massa da barata. No romance, a simbologia aprofunda-se: a barata parece ser o reflexo do inconsciente, elemento intuitivo, ponto de contato com o primordial, “inumano”. A desordem incomoda a narradora porque ela diz ter medo de viver o que não entende. A experiência sensorial com a barata leva a narradora a encontrar uma nova ordem através da desordem. A nova ordem é caótica. Ao colocar a barata para dentro de si, a barata, por sua vez, coloca-a para dentro do labirinto e ela descobre que o erro é procurar a saída: “se fizer sentido, é porque erro”.

2- “Des-il-ludere” ou os sentidos como caminho da descoberta:

...ver [...]é uma desilusão que não se quer ter”, diz G.H. O caminho da descoberta foi o do corpo: no conto, a profecia está escrita na boca da barata, suja de pó branco. No romance, passa à boca da narradora que prova o branco da barata. O “comer-se” aparece no conto como algo a ser purificado, a barata morre como castigo por olhar demais para dentro de si mesma. No romance, o “comer-se” conduz ao encontro com a essência, conduz à existência como finalidade, promovendo a desilusão da antiga vida: “era como se eu me organizasse dentro do fato de ter dor de estômago porque, se eu não a tivesse mais, também perderia a maravilhosa esperança de me livrar um dia da dor de estômago”. A experiência do enfrentamento do medo é vertiginosa, nauseante: “terei que correr o sagrado risco do acaso”.

3- “A ba(ra)tização de Clarice” – mo(vi)mentos de afastamento, aproximação e comunhão:

A identificação com a barata tem três momentos: primeiro, o intenso desejo de negação da barata, motivador da violência, realizada no conto como a seqüência de “assassinatos” das baratas e, no romance, através da ação de prensar a barata na porta do armário. Este primeiro momento possibilita o segundo, que é o desejo de aproximação com a barata: no conto, a narradora diz, após a morte das baratas, que “em nosso nome amanhecia” e identifica-se com elas: “como para baratas espertas como eu”. Em G.H. o momento de aproximação acontece após prensar a barata na porta, quando G.H. vê o rosto da barata, ambas igualando-se: “Ela estava à frente. À altura de minha cabeça e de meus olhos”. O movimento derradeiro é o de comunhão com a barata, ou da barata. É o momento da metamorfose, que leva a narradora ao seu batismo com o mundo.

4- O mistério revelado pela barata – como o essencial transcende a palavra:
A imolação do corpo da barata morta traz a redenção e a descoberta. Morrem as baratas para a purificação da narradora, para levá-la ao encontro com o divino. O encontro com o divino é a através da prova do essencial da barata: “Agüenta eu te dizer que Deus não é bonito”. O essencial da barata retira o inessencial do mundo, levando ao “êxtase que exprime o neutro”. A busca pelo essencial requisitou à narradora “atravessar a sensação de morte” e a descoberta lhe mostrou a dificuldade de lidar com a não-palavra: “ainda estou viciada pelo condimento da palavra”. O mistério revelado pela barata, a narradora resume quando diz que “o profundo acontece pelo não-saber”. A partir disso, desenvolve-se claramente a característica do “essencial” em G.H.: tudo começa com a carência, porque é ela quem move o ser humano. A carência leva à busca e a busca leva ao impalpável. Por isso, há de haver a desistência: “o indizível só me poderá ser dado através do fracasso da minha linguagem.[...]”.

Postas essas questões, podemos formular por que através da via-crucis de G.H desenvolve-se o desejo do eterno, que perpassa argumentos narrativos e a própria estrutura do conto e do romance. Note-se a circularidade da estrutura: o encadeamento de histórias no conto que termina começando uma próxima história; a frase do final dos capítulos no romance que se repete no inicio do próximo; a ultima frase do livro termina com um traço conforme o mesmo começa. As baratas do conto são eternizadas através do gesso. No romance, a barata oportuniza o contato com o eterno, com o imemorial. O mistério revelado tem caráter circular: como só se saberá que a palavra não é necessária ao se buscar por ela, o escrever será uma eterna busca e desistência. Eis aí o mistério maior revelado no texto: a paixão de G.H. é a via-crucis da palavra.

Isso nos remete para fora do texto, à própria obra e à autora, pois, nesse sentido, o livro representa a paixão da palavra, pois é a concretização da busca por ela e do encontro da não-palavra. Para Clarice, escrever não era questão de forma versus conteúdo, pois só a intuição tocaria a verdade, prescindindo da palavra. (Clarice in Jornal do Brasil, 20/02/69). Na entrevista concedida ao jornalista Júlio Lerner, 1977, Clarice fala sobre o fato de naquele momento não estar elaborando nenhum livro: “Por enquanto eu estou morta”. Pois, se escrever leva a escritora ao contato com o eterno, por outro lado só haverá escritura ao término de escrever. O eterno, então, torna-se fugaz. Eis a via-crucis de quem escreve: essencial para Clarice era prescindir de palavras, como isso seja impossível, escrever é seu martírio e gozo.

Como só o fim possa fazer existir a escritura, nela somente a morte pode retomar a vida. Por isso, é do meio da barata morta que acontece o renascimento. Talvez por isso também, no último livro, “A hora da estrela”, a heroína Macabéa cumpra a profecia da sua morte, para que o narrador pudesse devolvê-la ao início, à não-existência, eternizando-a. “Todos nós que escrevemos, estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida” (Clarice in Jornal do Brasil, s/d). O ato criador da palavra conduz criador e criatura à eternidade, mas o exercício é árduo. Clarice trouxe de sua procura muito do essencial que buscamos, não é à toa que no final de sua vida dissesse estar cansada. A tarefa, porém, estava cumprida: ela já havia se alçado ao eterno.