Câmera escondida
Ela chegou na sala de aula e disse: “com você? Não, nunca mais!” Saiu, batendo a porta, coração partido. Um mês depois largou o curso de artes e começou um curso de técnico contábil. Terminou o curso já empregada numa contabilidade e virou especialista em fraudar imposto de renda. Conseguiu bastante dinheiro fazendo a declaração de grandes empresas. Após a vinheta do Jornal Nacional, a chamada: “descoberta sonegação milionária envolvendo uma multinacional de bebidas”. No foco, o rosto da contábil gravado por uma câmera escondida. Enquadro a imagem e dou um zoom na lateral da cena: dos livros dispostos na estante com três prateleiras, dois deles estavam desarrumados, em diagonal. Na ponta esquerda e acima estava o Código Civil, organizado por Negrão e Gouvêa, e no canto direito e abaixo estava um caderno ilustrado sobre o Barroco, da Taschen, editado por Ingo Walther. A capa do livro do canto direito e acima trazia Iustitia, de olhos vendados, segurando a balança e a espada. Na capa do que estava à outra ponta, bem abaixo, à esquerda, estava Baco, na versão de Caravaggio, andrógino, de olhos sedutores, oferecendo uma taça de vinho. A voz da jornalista, meses depois, anuncia: "a Justiça Federal arquivou o processo por falta de provas". Da contabilista, nenhuma notícia. Dou um zoom out , encho uma taça com vinho Cabernet gaúcho que quase derrubo em cima dos livros e me pergunto se não seria melhor ter a taça cheia de Chandon, sempre. Olhei o rosto da tela, em pausa, interrompido pelo erro na busca do Graal dourado, transbordante de cifras. Tomei mais um gole do vinho muito arroxeado por conta do corante, risquei um fósforo e joguei sobre os comprovantes de depósito, notas fiscais, anotações e recibos. Embebidos em álcool, queimaram num instante.