Ultimamente tenho fugido das filosofices, de qualquer discussão que se pretenda séria, porque não acredito mais em qualquer tipo de revolução intelectual. Revoltei-me com a minha revolta e minha intenção atual é tornar-me Homer Simpson universitária. Estou empenhada nisso, e vou te contar que o mundo oferece muitas oportunidades pra que dê certo. Passo horas na internet lendo os spams do Fernando, assisto Faustão, me recuso a ler qualquer coisa que não seja um folheto comercial.
A (des)evolução estava indo muito bem até que o maldito chão do abismo metafísico ressurgiu como lava. Aconteceu quando eu estava com uns amigos num barzinho aqui em Florianópolis. Um bêbado de meia idade parou frente a nossa mesa e, batendo a mão no peito, disse, agarrando-se nas silabas:
- Eu sou.
Então, calou-se. Parecia um poeta iniciando uma declamação. Ficamos um tempo o olhando, sorrindo, esperando que o ato cênico começasse. Mas nada. Silêncio. No que ele irrompeu, em berros sôfregos:
- Vocês não estão entendendo, idiotas! Eu sou.
Nos entreolhamos, rindo nervosamente. Aí o Carlos perguntou:
- Tá bom, cara. Diz aí quem você é.
O bêbado olhou pro Carlos, deu uma risadinha de lado, voltou o olhar pro Carlos e disse:
- Eu sou, você não ta vendo. Eu sou!
O pessoal riu, incomodado. A situação começou a me deixar perturbada: quem era aquele homem, e o que ele queria dizer? O Carlos chamou o garçom:
- Que droga de bar deixa entrar um maluco desse tipo? Manda alguém tirar esse panaca daqui.
O garçom, muito tímido, olhou para baixo pedindo desculpas e foi em direção ao segurança que ficava na porta de entrada. O segurança, que era um monstro, chegou perto do bêbado e pediu, com uma fineza britânica, até usando próclise, para o cara retirar-se do local. Claro que o bêbado, convicto que era, manifestou-se:
- Não saio, não. Porque eu sou.
- Eu também sou, todo mundo aqui é, até o cachorro é. Não precisa se preocupar. Que tal agora você pegar um ar, tomar uns goles de água pra melhorar essa cara e continuar sendo? Se continuar bebendo assim, logo, logo você não será mais! – disse o monstro.
Nisso o bêbado começou a chorar, e soluçando dirigiu-se pra saída, amparado pelo segurança.
- Até que enfim o cara foi embora, – disse o pessoal, – que grande idiota foi aparecer aqui.
Quis defendê-lo, mas não falei nada. Não tive forças. Aquele homem tinha acabado com os meus planos e me devolvido à cadeira de pregos. Não consegui mais ficar naquele bar, levantei-me rápido, disse um “tenho que ir por motivo tal”, nem lembro. Saí, apressada, irritada. Na calçada estava o meu algoz, de costas, sentado no meio fio, conversando com uma garrafa azul, que refletia sua cara bêbada em côncavo:
- Eu sou – dizia a garrafa azul de boca enorme.
Me enchi de coragem, encostei no seu ombro, ele se virou meio assustado. Eu falei, quase sem voz:
- Eu sei que você é. Você é mesmo, e é muito. Sabe, às vezes eu também não sei mais se sou e o mundo parece vazio. O que você acha? Será que sou?
Ele me olhou, olhou para a cara azul, olhou pra mim novamente:
- Acho que somos, sim.
- Obrigada, eu tive muito medo, agora estou tranqüila.
O bêbado olhou mais uma vez pra cara azul e a atirou para o outro lado da rua. Eu já estava perto do meu carro quando ouvi ele dizer: - não precisa ter medo! Voltei pra casa, estranha. Abri a caixa que tinha fechado no mesmo dia, e devolvi os livros à estante.