Novo paradigma do sujeito (release)

Fiquei sabendo de uma interessante notícia semana passada através de uma professora de lingüística: a nossa língua está passando do paradigma de sujeito nulo* e está se tornando uma língua de sujeito preenchido**! Primeiro pensei: estamos salvos! adeus aos dias de miséria, às pessoas de alma pequena! Mas milagre nunca vi nenhum, então perguntei:
- Preenchido com amor, dinheiro paz, fé, confiança?
- Quem dera, menina, acho que você tá na aula errada.
Aí a professora disse que o sujeito está preenchido pra suprir a falta de morfemas no verbo. Então eu entendi o que está acontecendo: o sujeito que anda por aí está se preenchendo de angústias porque não tá conjugando a vida como queria.Há motivos para isso. O sujeito vive atrás de felicidade e há muitas opções de verbos disponíveis para se conseguir isso. Mas é difícil saber que verbos conjugar quando há tantos brigando pela atenção do consumidor verbal. Alguns verbos inclusive disfarçam a falta de morfema com uns acessórios gráficos bem modernos, achei um monte desses passeando pela seção de auto-ajuda. As conseqüências podem ser graves: fiquei sabendo de um sujeito tão preenchido, mas tão preenchido por causa de um verbo vazio, que passou mal e teve uma verborragia.

Por isso, eu acho importante a criação de um PROCON lingüístico. Nada que tivesse a ver com pôr os pingos nos is. O i não precisava de pingo de nenhum, quem é que tem tempo de pôr pingos nos is hoje em dia? Isso é superficial, futriquice, agressividade à toa. Tem outros borrões mais importantes, o problema grave que nos ronda aqui é SEMÂNTICO. É inegável o perigo que representa, por exemplo, o verbo TER disfarçado de SER. A pessoa não percebe que está sendo enganada e conjuga o que tem achando que está conjugando o que ela é. Esse verbinho meliante aliciou outros verbos de caráter duvidoso e já existem quadrilhas especializadas. A orientação dos investigadores é que os sujeitos prestem especial atenção com os verbos comprar, querer, acumular, pois o sujeito pode ficar totalmente preenchido de nada. -Perigosíssimo!
- O que você disse?
- Nada, professora, tava pensando alto...

* Sujeito nulo: é quando a frase não expressa o sujeito. Exemplo: "Pegamos o bandido". O morfema '-mos' é a desinência número-pessoal, ou seja, informa ao interlocutor que o sujeito da frase é "nós". No portugês brasileiro, já houve um paradigma (modelo) verbal que tinha seis morfemas diferenciados para as seis pessoas:
Eu amo
Tu amas
Ele ama
Nós amamos
Vós amais
Eles amam.
Esse paradigma possibilita que o sujeito não seja expresso na frase, afinal já está expresso no próprio verbo.
**Sujeito preenchido: é quando o sujeito está expresso na frase, o que ocorre quando o paradigma verbal não diferencia todas as pessoas verbais, como no inglês, em que só há variação na terceira pessoa do singular:
I love,
You love
He/she/it LOVES
We love
You love
They love

É um processo que também está acontecendo na nossa língua: a conjugação da 2a do singular e do plural caíram em desuso; a 3a do plural está cada vez menos usada, substituída pela expressão “a gente”. Então, o modelo de conjugação estaria apontando para o seguinte:
Eu amo
Você ama
Ele ama
A gente ama
Vocês amam
Eles amam.

Veja que são três formas para seis pessoas. Por isso, a necessidade de expressar o sujeito na frase, ou seja, usar o sujeito preenchido.