Não, leitor. Eu não te respeito.
Caso não tenha percebido, eu não tenho compromisso contigo. Entenda que há poucos espaços na vida que podem ser espaços de resistência. Talvez nenhum. Eu já concedo demais, demais... mais do que gostaria. Então por que razão cederia no espaço onde tenho a premissa de mínima autonomia?
Não. Não cederei a você, que não conheço, que conheço desconhecendo, entidade abstrata, construto imaginado.
De modo algum me responsabilizo pelos ferimentos e desgostos de qualquer tipo. Precavi-me inserindo um letreiro de aviso com a finalidade de evitar tais incidentes: Trata-se de chuva de pedras, de subjetividade de agulha de aço, de brinquedoteca de palavras de faca, de ilusionismo de mágico perverso. Quer atravessar o leito de lâmina? Assuma o risco!
A resposta que você quer de mim, eu a trago comigo, mas não vou dá-la tão facilmente. Talvez eu nunca a exponha. Talvez eu a disfarce de pergunta retórica no café da tarde:
- Olá, tudo bem?- vou dizer. E nas entrelinhas, segredos do mundo. Nunca saberá tudo! Talvez perceba algo diferente na sintaxe; talvez algum sentido o deixe perplexo e, então, você irá se corroer: -O que isso quer dizer, o que isso quer dizer- Tentará classificar. Tentará comparar. Empreenderá uma alucinada corrida pelo entendimento. Algo escapa. Algo muda.
Pode ver? Meu desrespeito é minha melhor oferta. É com todo amor que te ignoro completamente. Para que você, caro leitor, possa sair do conforto mortal de seu lugar comum pre-determinado e, por um instante, me acompanhar no abismo do inominável. Sem garantias. Só pela aventura. Pela possibilidade do encontro.
A reverência que te oferecem, aos montes, e que você julga facilitar sua vida, é nada mais do que estratégia daqueles que te querem manso. Enquanto eu...
Não espere complacência. Assim como você, leitor, sou entidade impessoal, puro construto, maquinaria de abstração, material para um empreendimento em que, talvez, lá no limite do exercício da linguagem humana, haja um espelho onde eu possa enxergar a sua humanidade no mesmo momento e tao somente no momento em que você enxergar a minha. Só posso oferecer experiências radicais, o que te dizer?
Talvez seja assim mesmo, fenômeno explicado não à luz, mas à sombra da coerência. O segredo que venho te contando é esse, mais simples e mais difícil do que sei que gostaria... porque no espaço em que se dá por ausente qualquer promessa, é onde adormecem os sentidos de um mundo ainda inabitado, à espera dos passantes que ousam atravessar o fluxo pontiagudo da ordem das palavras.
Em última instância, somos dimensões distintas de mesmo ente, como tabuleiros em paralelo, correndo sobre o risco da possibilidade de incompreensão e de esquecimento, na esperança de vivenciar encontros tão breves quanto graves. Belos. Dentro do jogo que nos constrói, te vejo e te perco em cada passo dado e é só no perder que posso te ganhar novamente...