Tem dias em que a gente se dá conta de que a vida é um absurdo. Constatação que faz o chão tremer e a vista turvar... Até tentei pegar o ônibus. Não consegui. Como continuar no mesmo passo depois da des-ilusão? Como não ser afetada pela explosão galáctica? Como abdicar da tentativa de (re)solver tudo?
Algumas placas no caminho apontavam direções. Excludentes. Vou te contar que isso não é problema da política, é da linguística: toda fala é uma grosseira tentativa de linearização. E se a gente é só pedaços! O caos não é a violência. Socializar é a violência, porque a língua é uma violência ao caos. O que é a violência? Violência é bom, é ruim? O que é equilíbrio, é bom é ruim? Por que a gente dicotomiza tudo, tu-do?
Você mal se segura para me dar respostas prontas diante de minha inquietação. Então, você quer vir aqui se meter na minha vida e me dar respostas? À MERDA com tuas respostas. À MERDA com tuas certezas. Elas não servem para mim, nem para ninguém, só para o teu ego! - foi o que eu disse diante da garota das placas, caxias do caralho, comprou uma certeza ontem, agora quer vir lavar meus ouvidos.
O fato é que eu sou um bicho. Não sou humana. Ah, como acho engraçado quando falam da minha humanidade. Cérebros são um faz-de-conta. Criam cenários impressionantes. Enquanto digo isso, olhei para a sua cara e ouço você dizer que se preocupa comigo. Me disse, não deveria falar essas coisas, senão nunca vão te desamarrar. Quem é você para determinar o que devo ou não dizer? Você é uma sombra, você é um eco. A tua cara é um umbigo e quando você abre a boca eu sinto o bafo de dois mil e treze anos. Ao invés de usar os dedos da mão para soltar minhas amarras, você as aperta mais. E me ama mais...Essas marcas roxas no meu corpo... você que disse que me amava e me chamou de princesa. Até descobrir que eu não era partes comestíveis, tal qual vaca docilizada rumo ao abatedouro.
A vaca deve ser comida pelas pessoas, a vaca não deve comer pessoas - inscrevia a placa na bifurcação. Deve ter sido por isso que você ficou paralisado quando arranquei a tua mão, foi caso de crença nas placas. Você sabe quem as escreveu? Não sabe, você é um umbigo. Você acredita nas placas só porque a Palavra te dá a sensação de autorizar a sua supremacia.
Foi tudo muito rápido depois que me soltei. Quando vi já estava caminhando a céu aberto. Eu olhei o céu, lembro que olhei... era um azul que refletia na minha pele uma impossibilidade absoluta de ser pego pelos sentidos. Era um céu que me atravessava, cego, não me expiava nem me distinguia. Exercia um peso impassível e irredutível, curvando todos sem que percebessem. Tentei pegar o ônibus, continuar no mesmo caminho, seguir para casa, jantar, pôr as crianças para dormir. Ainda tonta, fui me arrastando. Mas, não consegui chegar na porta. Fui pega. O céu. Ele dizia do absurdo da existência e eu pude ouvir. Havia nisso uma beleza tão grande e tão triste. Triste porque nem sempre é fácil abandonar antigas pinturas, que pareciam tão certas. Mas, belo, extremamente belo, em sua acolhida de forças e de partículas. Pensei nisso enquanto largava os ossos aos cães. Palavras não são só palavras. Jamais inocente de novo. Foi oneroso desatar tantos nós sem nenhuma ajuda. Não me rendo mais à calmaria. O céu da liberdade jamais será pacífico. É o lugar de convivência da tempestade e do furacão. Entre a água e o ar, lá estou.