Para meus gatos

A nossa história é a de dois mundos irreconciliáveis e, por isso, não é nossa história. Provavelmente, é só minha. Mas é uma boa história mesmo assim, lembranças sempre são ímpares. Eu lembro que te amei quando você morava perto do rio, você era mãe e era três; eu era várias, cada dia uma cor diferente, criativa, solta. Morava morro acima, longe, mas sempre ia te ver. Lembro que ninguém gostava que eu lá  fosse, tinha mato, tinha o rio, tinha o azulejo sujo de um banheiro demolido pela água. Mas, só de pensar em você meu coração palpitava e eu descias as escadas, correndo. Um dia você sumiu, outro dia você sumiu, até não restar mais ninguém. Eu também tinha sumido, eu sumia todo dia, cada dia sumia diferente e assumia outro amor. O que eu não sabia é que essa seria a última vez que teria você tão perto e por tanto tempo.

Depois, nos encontramos quando eu já era mocinha, pequena, bonita e com aqueles cabelos sedosos de quando se está virando mulher. Você também era assim, macia, elegante, charmosa. Tínhamos a mesma idade. Você apareceu num dia ou numa noite, me apaixonei por você, pedi que ficasse. Quanto tempo durou, três meses? Teu sumiço dessa vez me fez trancar a porta e não querer ver ninguém.

Isso aconteceu mais duas vezes, ao longo de uns dez anos. Nosso amor cada vez mais furtivo. Da primeira vez, você estava menor e mais escura. Eu também estava mais escura, só que por dentro. Naquela época, eu estava mais veloz, só que mais tensa, bem mais tensa. Lembra como eu tentava controlar tudo? Ao te ver, nosso amor me fez tentar um pouco. Erro meu, eu não podia ficar. Eu estava mesmo num vôo rápido. Fui embora sem você. Te deixei na mão de outros. Espero que você nunca me conte como terminou essa história, eu não poderia aguentar.

Na outra ocasião, você estava camuflada de terra e tinha olhos de fogo.Você se tornou uma fênix. Eu também tinha me tornado fênix porque eu já tinha morrido muitas vezes. Eu nem sei se você me reconheceu. Talvez na hora em que te olhei... Você viu como eu tava diferente? Como meus olhos estavam desiludidos? Como meu corpo estava cheio de marcas? Era véspera de ano novo quando te vi. Meu coração soltou um foguete.Te apresentei aos meus filhos, à minha família. Eles te odiaram tanto! Te agradeço por tentado conviver naquelas semanas. Mas, acho que não consegui dormir por nenhum dia.

Ontem, quando ouvi você chegar, eu soube que era uma hora muito errada. Eu corri, desesperada. E mesmo assim, bateu uma esperança só de saber que ia te ver. Desacelerei um pouco.Quando vi o que estava acontecendo com você, eu só podia saber de te tirar de lá, a qualquer preço. Não imaginei que estivesse tão ferida. Toda minha dor pareceu absolutamente ridícula. Você estava linda, prateada. Acho que te assustei com a fúria com que tentei te tirar de lá. Ainda se tivesse resolvido alguma coisa... Tentei com todo amor que tive, isso melhora um pouco as coisas? Você conseguiu ver que eram meus os braços que te enlaçavam ou o sangue já tinha te tapado a vista? Será que você entendeu meu gesto, esse e todos os outros?

Bom, agora, estou aqui olhando pra você, falando essas coisas, como uma covarde, porque você não pode respondê-las. Acho que a tua versão seria tão diferente, talvez eu nem apareça nela. Ou talvez só os meus olhos, ou a minha mão estendida, ou só olhos quaisquer, mãos várias. No fundo, eu tenho uma esperança de que você tenha me amado como eu te amei. Mas, vou te dizer a verdade, eu nem sei se esse amor é bom. Minha dor sempre foi a de amarmos tão diferente. Teu amor é uma sede que passa. O meu é um peso que fica. Lembra que nossa diferença sempre foi a geografia? Meu mundo curto de tracejado grosso. Teu mundo largo de limites fluidos. Nunca entendi você, por que você nunca ficou, por que você assumiu riscos, por que teus olhos desconfiavam de mim, por que você segue com tua vida mesmo com todo o amor que tenho pra te dar.Ontem, pensei nisso tudo, enquanto te segurava e me despedia mais uma vez.  Sabe o que não esqueço, que você olhou pra mim quando se defendeu do susto que levou, e teus olhos eram dois raios imortais desenhando uma porta por onde você deve ter escapado todas as vezes que tentei te segurar comigo. Eu entendi um pouco, sim... Não que tenha parado de doer... Mas, pelo menos, estão mudando as perguntas.