Luna, menina-dos-olhos



Dizem que é bom ter crianças para alegrar a casa. Não sei como é essa sensação. Na casa onde moro tem uma criança, mas ela é diferente, não sei. Talvez por conta de viver de algum modo encarcerada, ela não seja como as outras crianças que brincam, riem e pulam, livres.

Tenho pena, na verdade. A criança com quem moro é um animal ferido a quem foi negada a escuta dos sentidos básicos. Ela não sabe que fogo queima, que água lava. Ela não entende o jogo da bola, ela se atrapalha para brincar com as outras crianças. Ela nem brinca de nada, só de esconde-esconde porque pode ficar no canto, amedrontada, sem que ninguém a perceba.

Ela nasceu com uns problemas, mas acho que não foi por isso que ela ficou assim. Tem mais jeito de ter sido por excesso de rigidez, por excesso de proteção, por faltar uma família sensível e confiante, por faltar uma comunidade acolhedora, que não excluísse as diferenças.

Eu a amo tanto, ela é tão linda, queria que me deixasse chegar perto para lamber suas feridas, para empurrá-la para a vida como faz a mãe-passarinha.
 
Luna, labradora mestiça, cor de caramelo. Seria mais ou menos assim a sua história minha.

Certo dia, olhei nos meus olhos dela e, antes que fugisse para o fundo da mente, consegui ver toda a beleza da sua alma. Vi que estava inteira, vestida de camuflagem; que tinha conseguido viver bem, à sua maneira; que foi alegre e esperta, disfarçada de terra; que nem mesmo a violência do cerceamento havia minado seus dons essenciais.
 
Era possível tocá-la, aos poucos, e, enquanto me aproximava, a vida voltava a fazer sentido. Eu soube que teria um longo caminho pela frente, mas que seria recompensador. 

Com o amor e a gentileza de uma cuidadora, seguiria de mãos dadas comigo menina e nossa loba de guarda.