A moradora do armário

Minha avó gosta de guardar as coisas. Ela tem um porta-jóias de veludo vermelho que guarda desde que casou. Falei que é vermelho porque foi o que me disseram, pois a cor agora é amarelada. Guardar porta-jóias antigo é algo comum, mas ela guarda muito mais coisas. Na cozinha tem um armário só para os potes vazios de margarina e geléia, uns ainda com rótulo esfarelando, outros só com o vestígio discreto do adesivo. Na despensa, tem uma parte só para as garrafas vazias, colocadas em engradados, de ponta cabeça.
- Nem precisava, vó, aqui dentro não chove.
- Mas é para diferenciar das garrafas cheias, que ficam com o lado da tampa para cima.

A casa toda é uma coleção de coisas que ninguém coleciona, só a minha vó. Ela coleciona camas, por exemplo. Ontem fiquei aqui na casa dela e dormi na cama onde morreu um tio há trinta anos. Mas se eu quisesse poderia dormir em muitas outras camas em que morreram várias outras pessoas. Parentes que não conheci. Claro que junto com a coleção de camas, vem o quarto completo: armários, bidês, porta-retratos, baús. É uma casa em que não se pode estar distraído, sob o risco de bater com a cabeça no armário da tia Cida que morreu no dia em que completou quarenta e dois de idade, coitada.

Apesar de já conhecer essa mania da minha querida avó, estranhei muito ontem quando abri o armário. Não sei como, mas minha bisavó Hilda estava lá, dependurando-se no cabide.
- Eu moro aqui – disse a bisavó.
- Mas você morreu! – protestei, assustada.
Ela riu uma risada dos mortos e disse:
- Menina boba, você não sabe nada da morte.
Ainda bem que chegou a vó, que correu com a bisa, mandando ela de volta pro armário:
- Não era hora de você sair! Volta pro armário, mãe! - e voltou a bisavó pro armário, subindo o degrau e lançando as mãos ao cabide.
- Tchau, bisa!
- Tchau, menina, quando quiser pode me procurar aqui nessa porta.

Teria sido muito bom conversar com a bisavó, mas na verdade eu estava mesmo com muito medo, porque dos mortos nada sei, foi até ela quem me lembrou disso. Sem contar que ela era mais ossos do que gente, nem parecia a mesma pessoa das fotos. Notei que minha vó ficou resignada, e eu estava pronta para fazer muitas perguntas sobre aquela estranha situação. Ela se antecipou:
- Todos eles moram aqui, meus pais, meus irmãos mortos. Não só nesse armário, mas em vários armários. Ainda temos muito o conversar antes de eles irem embora. Tem dias que a gente não se entende, sai briga. Mas também tem vezes em que o papo fica bom!
- Eu não quero guardar ninguém no armário, vó. Vou ser diferente! – disse com firmeza, sentindo repugnância por aquela vida numa casa entulhada de coisas e pessoas.
- Não seja injusta comigo, minha querida. Será que fui somente eu quem os guardou ou eles que não se deixaram ir? Essa resposta não é fácil pra mim. Como separar a lembrança que queremos daquela que permanece sem pedir licença? Quando você se machuca, consegue deixar de sentir a dor só por não querer sentir?
- Não mesmo, parece até que quanto mais tento esquecer, mais ainda dói!
- Foi assim comigo, e as feridas não conversadas foram tantas que eles foram ficando por aqui, me lembrando do que deixei pra trás.
- Então não tem solução, vó? Quando você morrer, a mãe vai te guardar no armário também? E aí depois eu vou guardar a mãe no armário? Tem que ter um jeito de mudar isso, armário não é para guardar pessoas!
- Tem jeito sim, minha linda. Claro que não é possível passar uma vida inteira sem se machucar, mas o erro está em fingir que não dói. Pra fazer lembranças boas tem que conversar, tem que aceitar a fraqueza de si mesmo e dos outros. Quem sabe pra você as lembranças sejam mais generosas... É a melhor coisa que você pode fazer!

A idéia me pareceu bem coerente. Me senti disposta a praticá-la. Imaginei que talvez assim garantisse que meus armários tenham coisas mais agradáveis no cabide do que a minha bisavó mumificada.
- Venha, pequena, vamos dormir. Em qual cama você quer dormir hoje?
- Pode ser naquele colchão que está embrulhado?

Ela me ajeitou na sala e fiquei vendo tevê até pegar no sono. Deitei em um colchão novinho, ainda sem memórias, com cheiro de vivos. Foi reconfortante dormir em algo que seria preenchido somente com minhas novas lembranças. Naquela noite, sonhei com armários brancos em que as portas se abriam e fechavam numa gargalhada feliz por estarem livres por dentro.