Algumas leituras me marcaram de um jeito quase repugnante. Percebi que as mais marcantes foram as que revelaram a capacidade de levantar a bata do padre. Justamente porque as palavras, na maior parte do tempo, são a roupagem para cada situação. E quando a leitura possibilita o descolamento dessa segunda-pele-social, o leitor sente-se ele mesmo desvelado, acontece de súbito uma nova percepção das coisas. Aquele "eu" ignorado, ou até mesmo proibido, tão cuidadosamente mascarado, liberta-se, puxado pelos braços do narrador.
O "eu" recém retirado do cativeiro toma duas posturas em relação ao narrador intrometido: sublimado pela graça da aventura, será tomado de gratidão pelo narrador; ou, então, sentirá repulsa pela revelação não solicitada. Os que me causaram náuseas, alguns nem consegui ler até o fim. A última recusa foram os contos de Chão em Chamas, de Juan Rulfo. A poeira humana subia e me engasgava o pensamento. Num momento psicológico em que sentia necessidade de um mundo alicerçado, a verdadeira amoralidade humana posta na minha cara, era insuportável. Se fossem aventuras burguesas em submundos a la Baudelaire, como costumo ler na maioria dos romances de que gosto, seria fácil, pois é confortante um pouco de eau de parfum depois de explorar o lixo. Mas os homens de Juan Rulfo são um deserto, a alma ressequida até o fim. Não há expectativa de nada, apenas o prosseguir das coisas, apenas a sobrevivência de cada um, assegurada pela violência, que não é gratuita, mas tão natural como a própria morte. Por outro lado, os ciclos naturais e humanos aparecem interrompidos por um eterno e exasperante estalo do corpo à procura de algo que satisfaça a fome, o sexo e a sede de algo que os personagens de Rulfo não sabem dizer. O que eles procuram, se redenção, poder, amor, se não sei ao certo como também desconheço o que eu busco. É no momento da assimilação do "eu"no outro que é retirado do eu-leitor a carapuça anônima (em contraponto ao escritor nunca desapercebido). Então, a mágica ou magia estarão feitas. O que resta disso nem sempre é bonitinho. Como uma personagem rulfiana, busco satisfazer minha fome, o sexo e a sede de algo que nem sei. Também sou poeira prendendo a garganta. Melhor fechar esse livro porque o sol já está escaldando a pele.